Jornada relembra Leite Lopes: físico, professor e humanista combativo

A vida e a obra do físico teórico brasileiro José Leite Lopes (1918-2006) serão relembradas em uma jornada de debates nesta sexta-feira (29), no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ).

O encontro é promovido pelos grupos de pesquisa ´Física e Humanidades’ e ‘Teoria de Campos e Partículas Elementares’, do CBPF, bem como pela ‘Associação de Pós-graduação José Leite Lopes do CBPF’. O evento ocorrerá das 10h às 17h, no auditório do 6º andar, com entrada gratuita a todos os interessados.

Segundo os organizadores, o objetivo do encontro é – nestes 10 anos da morte de Leite Lopes – recordar “sua ativa e marcante participação na física das interações fundamentais e partículas elementares; sua militância pelo ensino; seu excelente trabalho na elaboração de textos para estudos; o cidadão-docente-pesquisador que discutiu profundamente a inter-relação ciência-sociedade”.

Nascido em Recife, formado em engenharia química (1939) e física (1942), Leite Lopes foi o primeiro doutor formal da física no Brasil. Obteve o título em 1946 na prestigiosa Universidade de Princeton (EUA). Sua tese foi orientada por dois expoentes da física: o austríaco Wolfgang Pauli (1900-1958), Nobel de 1945, e o suíço Josef-Maria Jauch (1914-1974). Lá, conviveu com a elite mundial da física e teve a chance de conhecer o físico de origem alemã Albert Einstein (1879-1955).

 

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Leite Lopes (esq.) e o húngaro Eugene Wigner (1902-1995), Nobel de Física de 1963

(crédito: Arquivo CBPF)

 

Leite – como era conhecido por amigos e colegas – dedicou-se principalmente ao estudo da física de partículas elementares e as interações (‘forças’) fundamentais da natureza. Um artigo seu de 1958, publicado em Nuclear Physics (v. 8, p. 234), estabeleceu os princípios de uma relação entre duas forças da natureza: a eletromagnética – responsável, por exemplo, pelo atrito que presenciamos no cotidiano – e a fraca nuclear – que age apenas em dimensões diminutas, proporcionais às do núcleo atômico (algo como a milésima parte de um trilionésimo de metro).

A teoria que unificou essas duas forças deu o Nobel de Física a três físicos em 1979: os norte-americanos Steven Weinberg e Sheldon Glashow, e ao paquistanês Abdus Salam (1926-1996). Weinberg, em sua palestra do Nobel, cita o artigo de 1958 de Leite Lopes.

 

Poliédrico e multifacetado

Humanista de largo espectro, fluente em vários idiomas, Leite apreciava também a poesia, a literatura e as artes – dedicou-se à pintura. Por seu vasto cabedal de conhecimentos e interesses, poderia ser classificado como um ‘Renascentista’.

“Leite Lopes é uma figura poliédrica e multifacetada”, como o definiu certa vez seu colega de longa data e também físico teórico Amós Troper, ex-diretor do CBPF.

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Leite Lopes em evento em sua homenagem no CBPF

(crédito: Arquivo CBPF)

 

Seus textos sobre política científica e educação foram cruciais para alavancar a criação de órgãos de apoio à pesquisa no Brasil, como a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Suas ideias e posições políticas – sempre em prol da democracia, da educação ampla e dos direitos humanos – renderam-lhe uma cassação no final da década de 1960 pelo regime militar. Passou parte de seu exílio nos EUA e, principalmente, na França, onde fez carreira de prestígio e ocupou cargos importantes.

Leite pode ser visto como um dos principais articuladores de um movimento, no final da década de 1940, que reuniu, além de cientistas, intelectuais, jornalistas, artistas, militares, políticos e empresários, todos em prol tanto da fundação de um centro de pesquisas dedicado à física no Brasil quanto do regime de dedicação integral à docência e à pesquisa. Como desdobramento dessa mobilização, foi fundado, no início de 1949, o CBPF, nascido como uma sociedade civil, pois a universidade no país ainda se mostrava refratária a esses dois pleitos (pesquisa e dedicação integral).

Esse movimento – banhado pelo cenário desenvolvimentista da época – foi amalgamado com base na repercussão internacional dos feitos de 1947 e do ano seguinte do então jovem físico experimental brasileiro César Lattes (1924-2005), cuja participação havia sido decisiva na detecção, tanto em Bristol (Reino Unido) quanto em Berkeley (EUA), de uma nova partícula subatômica, o méson pi (ou píon), responsável por manter as partículas do núcleo atômico (prótons e nêutrons) coesas.

A reboque do CBPF, pouco anos depois, veio o hoje Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e, de certo modo, os primeiros movimentos em prol da Fundações de Amparo e FINEP.

Pode-se dizer que, naquele início da década de 1950, ciência era parte de um projeto de nação.

 

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Lattes (sentado) e Leite Lopes no CBPF

(crédito: Arquivo CBPF)

 

Mais detalhes sobre a vida e obra de Leite Lopes podem ser encontrados em dois livros de leitura rápida: i) Leite Lopes, de José Maria Filardo Bassalo, pesquisador aposentado da Universidade Federal do Pará, e Francisco Caruso, físico do CBPF e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, livro de bolso (133 páginas) da Editora Livraria da Física, de 2014; ii) José Leite Lopes – unificando as forças da natureza (116 páginas), de Jesus de Paula Assis (org.), da Edunesp (São Paulo, 2001).

 

Educação on-line

No dia anterior (28), outra iniciativa do grupo de pesquisa ‘Física e Humanidades’, juntamente com o projeto ‘Professor Global’, é a jornada de debates sobre educação on-line com ênfase na inclusão social, com a presença de palestrantes e debatedores especialistas no tema.

Para os dois encontros, a entrada é gratuita. Para o público externo, basta um documento de identidade com foto para participar das duas jornadas.

Abaixo, as programações das duas jornadas.

 

RELEMBRANDO O PROF. LEITE LOPES

Quando: sexta-feira, 29 julho de 2016, das 10h às 17h

Onde: Auditório 6º andar, do CBPF (Rua Xavier Sigaud, 150, Urca)

Entrada: gratuita (para não servidores, será exigido documento de identidade)

 

Programação:

10h às 10h30

Abertura

10h30 às 11h

José Leite Lopes: Ciência, Desenvolvimento e Democracia

11h às 11:30

1954-1964: interações fracas e a inserção de Leite Lopes no debate de uma época

11h30 às 12h

Discussão com os participantes

12h às 14h

Pausa

14h às 15h

APG José Leite Lopes: fundação, enfrentamentos e a atualidade

Gustavo Pazzini de Brito (Pós-graduação do CBPF)

Gabriel Freitas Silva (Pós-graduação do CBPF)

15h15 às 16:15

Mesa-redonda: Física na sociedade: educação e política

Mediador: Prof. Álvaro L. M. A. Nogueira (CEFET-RJ)

16h15 às 17h

Discussão com os participantes e encerramento.

 

PROFESSOR GLOBAL – EDUCAÇÃO ON-LINE E INCLUSÃO

Quando: quinta-feira, 28 julho de 2016, das 10h às 17h30

Onde: Auditório 6º andar, do CBPF (Rua Xavier Sigaud, 150, Urca)

Entrada: gratuita (para não servidores, será exigido documento de identidade)

Programação:

10h às 11h

MapleTA: avaliação eletrônica e ENEM

11h às 12h

A Sociedade do fato

12h às 14h

Pausa

14h às 15h

Equidade e democracia em educação matemática

15h às 16h05

[Título a ser anunciado]

Deputado Federal Alessandro Molon (Rede)

16h15 às 17h15

Comunidade da pesquisa – uma associação para aprimorar a interação do cientista com a sociedade

17h15 às 17h30

Encerramento