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Henrique Lins de Barros, do CBPF, é agraciado com a Ordem do Mérito Aeronáutico no grau de Grande-Oficial

  • Publicado: Quarta, 25 de Outubro de 2017, 14h35
  • Última atualização em Quarta, 25 de Outubro de 2017, 16h50
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ENTREVISTA

HENRIQUE LINS DE BARROS 

 

O menino que escutava aviões

 

Criado em um apartamento de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), onde mal dava para ver o céu, o físico Henrique Lins de Barros e os irmãos reconheciam os aviões pelo som – assim, decidiam se valia a pena correr para ver a aeronave que passava por entre os prédios. A brincadeira transformou-se em paixão, e Lins de Barros é hoje – além de pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) – um dos maiores especialistas na vida e obra de Alberto Santos Dumont (1873-1932), mineiro de Palmira (hoje, município de Santos Dumont), que carrega o título de ‘pai da aviação’.

 

O envolvimento com a história da aviação acaba de render a Lins de Barros uma honra concedida a poucos: a condecoração com a Ordem do Mérito Aeronáutico no grau de Grande Oficial. Trata-se da mais alta honraria oferecida pela Aeronáutica.

 

Henrique Lins de Barros, pesquisador titular do CBPF, recebendo Ordem do Mérito Aeronáutico

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

A cerimônia de entrega da medalha ocorreu no dia 23/10, Dia do Aviador, na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ). O carioca Lins de Barros conversou com o Núcleo de Comunicação Social do CBPF sobre a honraria, seu interesse pela história do avião e a figura de Santos Dumont.

 

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

 

Foi uma surpresa receber a Ordem do Mérito Aeronáutico no grau de Grande-Oficial?

Foi uma surpresa, sim. Eu já havia recebido outras condecorações, como o Mérito Santos Dumont, também oferecido pela Aeronáutica, e a Ordem Nacional do Mérito Científico, mas receber essa, agora, foi uma surpresa. Os quatro agraciados deste ano são um general, um brigadeiro, um almirante e eu! Não recebi um documento que justificasse isso, mas, fazendo um retrospecto, é possível imaginar. Ano passado, fiz com [o cenógrafo e artista visual] Gringo Cardia a exposição ‘O Poeta Voador’, no Museu do Amanhã [no Rio de Janeiro (RJ)], que teve mais de 500 mil visitantes, trazendo repercussão muito grande para o nome de Santos Dumont, que é patrono da Aeronáutica e figura importante no Brasil. Graças também à exposição, na abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, teve o avião 14 Bis, criado por Santos Dumont, logo antes de a Gisele Bündchen desfilar. A imagem foi para o mundo inteiro, a ponto de jornalistas norte-americanos escreverem matérias criticando o Brasil por reconhecer [o pioneirismo de] Santos Dumont [na invenção do avião].

 

O senhor é especialista na vida e obra de Santos Dumont. De onde veio esse interesse?

Sempre tive ligação muito grande com a aviação, sempre me atraiu a beleza do avião e do show aéreo. Acho o avião um artefato tecnológico muito bonito e espantoso, e há muito tempo venho fazendo modelos. O avião faz parte da minha juventude e de meus irmãos. Cresci em Copacabana, em um apartamento no qual a gente quase não podia ver o céu. Então, quando ouvíamos um barulho, tínhamos que saber se, no caso daquele avião, valia a pena correr para ver ou não. Mas fui fazer física, e na física é curioso e complicado entender o voo, não há uma explicação direta. Quando dava aula na Pontifícia Universidade Católica [PUC-Rio], num dos cursos básicos, usei a física do avião, porque com ela podia explicar mecânica dos fluidos e outros fenômenos. Além disso, desde quando me formei na faculdade, tinha, como muitos da turma, preocupação em trabalhar com divulgação de ciência. Gosto muito de fazer ciência, mas acho que é preciso socializar o conhecimento. E o avião é um caso quase exemplar, porque todo mundo conhece o avião, há um desejo pelo voo, e neste há muita física que está pautada em princípios básicos da física clássica, mas há algo mais, sem contar uma implicação tecnológica fantástica. Então, comecei a mexer com a física da aviação e aí, inevitavelmente, esbarrei na figura de Santos Dumont. E encontrei muito pouca coisa nos livros de divulgação sobre ele, porque a pressão para você falar dos irmãos Wright [os norte-americanos Orville e Wilbur Wright] é muito forte – é uma pressão política. Foi muito importante para os EUA, por exemplo, dizer que eles eram os pioneiros da aviação quando entraram na Segunda Guerra Mundial, em 1942. Há uma campanha flagrante, no final de 1930, depois que Santos Dumont suicidou-se, para repor o nome dos Wright, mas é algo que não tem sustentação histórica. Em 1903, os Wright fizeram um voo, mas com um avião que não era capaz de decolar. Em 1904 e 1905, realizaram outros, mas não tinham entendido o que era levantar voo. Uma coisa é você pular do morro e, então, sair voando – ou caindo, não importa –, mas estar no chão e sair para o ar é uma transição complicadíssima. E foi Santos Dumont quem descobriu a chave para isso. O que acontece é que quando você começa a trabalhar com a figura de Santos Dumont, você não consegue mais sair. Ele é uma personagem curiosa e complicada, que tem a euforia de ser o ‘king of the air’, como os jornais norte-americanos falavam, mas que chega ao ponto de suicidar-se. Santos Dumont morre em 1932, em meio a uma revolução. São Paulo está em rebelião contra o governo federal, a ditadura de Getúlio Vargas que estava surgindo. É uma saia justa – afinal, que país é esse que o grande herói se suicida? São Paulo vai dizer que Santos Dumont morreu de desgosto, porque estavam usando o avião contra os irmãos. O que o governo federal faz? Diz que ele morreu por causa do uso do avião na guerra. No atestado de óbito, está dito que ele morreu do coração e, por muito tempo, foi proibido falar que ele tinha se suicidado. Mas acho que o país quer saber mais sobre Santos Dumont. Há duas datas, 20 de julho, seu nascimento, e 23 de outubro, que é quando ele realiza um dos voos com o 14 Bis e que é o Dia do Aviador, nas quais saem coisas sobre ele [na mídia] que vão alimentando sua história.

 

Livros de Henrique Lins de Barros, do CBPF, sobre Santos Dumont e história da aviação

(Crédito: Divulgação)

 

O senhor diria que o brasileiro pouco conhece Santos Dumont, considerando tudo o que ele fez?

Santos Dumont é um nome que qualquer pessoa já ouviu falar, é o ‘pai da aviação’. Mas a maioria das pessoas não conhece a extensão da contribuição dele. Outros poderiam ser ‘pais da aviação’, porque ela vinha sendo desenvolvida já no final do século 19. Mas Santos Dumont é a pessoa que consegue juntar todo o conhecimento e fazer algo novo. Em 1906, ele consegue decolar com o avião 14 Bis. Isso é o que nós, brasileiros, ouvimos falar, mas os grandes feitos de Santos Dumont são anteriores: em 1897, na França, ele projeta, fabrica, constrói e experimenta o primeiro motor a explosão a petróleo que pode ser usado na aviação em geral, uma invenção dele. No dia 19 de outubro de 1901, faz o primeiro voo dirigido com um balão que sai de um ponto estabelecido, contorna a torre Eiffel, e volta ao ponto estabelecido, num tempo determinado. Isso é um voo de navegação, não é sair de um ponto e chegar a outro, é controlar o voo. Com isso, Santos Dumont inaugura a era da navegação aérea. Foi como quando Vasco da Gama saiu de Portugal e contornou a África. Com isso, ele inaugurou um novo período na história da humanidade. O voo de 1901 marca a assinatura do século passado. Muitas pessoas perguntam por que ele voou tão pouco. Uma razão é que ele tinha que improvisar: em primeiro lugar, o campo era pequeno e, em segundo, ele não era piloto. Não existiam pilotos: na hora que aquele aviãozinho saiu do chão, ele teve que aprender como controlá-lo. Ele conseguiu controlar um tempo e pousou correndo. E é muito curioso e bacana pensar que nessa época a física passava por uma transformação enorme, estavam surgindo a teoria quântica e a teoria da relatividade. Os físicos estavam voltados para essas teorias físicas que mudaram também o mundo, mas pouco voltados ao desenvolvimento tecnológico. O avião foi feito no campo de provas, com cientistas que não eram de laboratório. Eram cientistas empíricos que iam lá e tentavam, quebravam a cara, faziam. Eles sabiam o perigo que estavam correndo. Santos Dumont faz o 14 Bis em 1906 e cai com ele no ano seguinte. Então, então faz os [aviões] número 15, 16, 17, 18 e 19 em um ano. Com o 19, ele consegue voar não tão bem e, dois anos depois, faz o Demoiselle, sua obra-prima. É um avião muito bonitinho, e, em francês, seu nome é o termo popular de uma libélula. De todo modo, na época, o voo era tão complicado – e ainda é um pouco complicado de explicar – que, em 1916, Albert Einstein, na Alemanha, durante a guerra, escreve um artigo para tentar explicar o que é o voo. Esse artigo está errado – o avião, como ele o propõe, acaba sendo construído, mas voa mal. Então, o brasileiro conhece Santos Dumont? Não, o brasileiro fez uma caricatura de Santos Dumont.

 

A aviação vinha sendo desenvolvida já no final do século 19. Mas Santos Dumont é a pessoa que consegue juntar todo o conhecimento e fazer algo novo 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As caricaturas de Santos Dumont, por sinal, são mesmo frequentes…

É porque ele era uma figura muito importante na Belle Époque, no início do século passado. Vários desenhistas fazem caricaturas dele, inclusive George Goursat [1863-1934], desenhista que retratava a fina flor da França e que é um dos grandes caricaturistas do mundo. Santos Dumont tinha um jogo: a cada voo, ele chamava a imprensa, fotógrafos e jornalistas. Ele soube construir essa imagem, de modo que cada acidente era notícia no mundo inteiro, e, como ele teve muitos acidentes, toda hora era notícia. As pessoas dizem que ele caiu muito. Claro! Caiu porque estava voando! Ele está desenvolvendo uma tecnologia que não existia. Pensemos o seguinte: em 1925, foi criada a primeira rádio no Brasil, fundada por Roquete Pinto [antropólogo, 1884-1954]. Mas como havia uma rádio se não havia o aparelho para ouvi-la? Era um fracasso, de certa maneira. Qualquer desenvolvimento tecnológico tem esse problema: você tem que criar uma cultura na sociedade para assimilar o que está sendo feito. O que Santos Dumont fez foi divulgar a aviação e o voo. Seu livro Os meus balões é um exemplo, é gostoso de ler. Nele, ele descreve o desenvolvimento de seu invento. Ele foi escrito em 1904, na França, e, no ano seguinte, já estava traduzido nos EUA, mas foi traduzido no Brasil apenas na década de 1930. Isso chama atenção: como uma figura de tamanha importância para o Brasil é esquecida? São os exemplos terríveis da falta de prêmios Nobel brasileiros. Há Oswaldo Cruz [1872-1917], Cesar Lattes [1924-2005], aqui do CBPF -- como Lattes não ganhou o prêmio tendo sido indicado sete vezes? Na literatura, há Jorge Amado [1912-2001], Carlos Drummond de Andrade [1902-1987]. Acho que, infelizmente, isso tem um pouco da ‘cara de Brasil’: a gente esquece.

 

Como Santos Dumont conseguia dinheiro para seu trabalho?

O dinheiro vinha da fazenda de café do pai dele, a maior do Brasil. O pai sofreu um acidente e, então, vendeu a fazenda e distribuiu o dinheiro entre os filhos. Essa herança alimentou o início de carreira de Santos Dumont. Mas cada voo tinha um prêmio. No final do século 19, todas as grandes invenções pareciam ter sido feitas: o automóvel, o submarino, a locomotiva, o metrô, a transmissão… Faltava o avião; era o grande desafio. E a indústria de petróleo percebeu que, se alguém fizesse uma coisa que voa movida a petróleo, eles ficariam megamilionários. Então, decidiram incentivar isso. Cada voo, cada acidente, estava relacionado a um tipo de prêmio. Quando Santos Dumont morreu, um amigo que o acompanhou a vida toda -- e que era uma espécie de contador dele -- disse que a fortuna de Santos Dumont era muito maior quando ele morreu do que quando começou. Então, o dinheiro saiu do investimento que ele fez inicialmente e de sua objetividade. Ele foi construindo um ‘império’ que soube administrar muito bem.

  

No final do século 19, todas as grandes invenções pareciam ter sido feitas, faltava o avião. A indústria de petróleo percebeu e decidiu incentivar: cada voo, cada acidente, estava relacionado a um tipo de prêmio 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A atitude de Santos Dumont de sempre dar publicidade ao que fazia se relaciona com a divulgação cientifica. É uma postura que falta aos pesquisadores atualmente?

Acho que sim, mas vamos pensar. Em uma ocasião, Santos Dumont deixou uma mulher dirigir seu dirigível. Há uma polêmica, mas essa mulher, a norte-americana Aída de Acosta [1881-1962], é tida como a primeira mulher do mundo a fazer isso. No mesmo mês, ele dá carona a um menino norte-americano, que se torna o primeiro menino a andar de dirigível. Nesse período, Santos Dumont está indo aos EUA participar de competições. O que está acontecendo? Ele está precisando que seu nome não fique restrito à Europa. Ele está se expondo. Aí, você fala dos cientistas, é uma provocação muito próxima: eu acho que a gente tem que saber falar para a população, não necessariamente por meio do jornalista. Existe uma dificuldade: a pessoa que está trabalhando numa pesquisa espera que o jornalista tenha ao menos isenção ao ouvir o que a gente pode dizer. Sei que podemos falar uma linguagem mais complexa, mas o terrível é quando você fala, e o jornalista conclui coisas que você não disse e, depois, você é cobrado [por aquilo que não falou].

 

Conjunto de medalhas de Grande-Oficial

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

 O senhor fala sobre os prêmios que eram oferecidos por um setor da indústria que, ao ver potencial em uma tecnologia, decide investir. Essa é uma situação que poderia ser inspiradora para o Brasil de hoje?

Espera-se que seja mais que inspiração, seja uma lição. Aqui, no CBPF, há vários grupos e laboratórios que estão dando contribuições que poderiam vir a ter aplicações industriais, mas, para isso, têm que ter o industrial disposto a investir e incentivar, pensando no futuro, não apenas no imediato. A pesquisa que eu faço agora aqui no CBPF não tem utilidade; estamos observando, descobrindo e analisando bactérias que produzem nanocristais magnéticos. Mas, se olharmos o caminho da área, talvez, venha a ser um dos caminhos para o tratamento de câncer. Talvez. Uma das ideias é que esses nanocristais poderiam ser colocados em regiões do interior de células cancerosas e, em seguida, se aplicar um campo nesse local, fazendo os cristais vibrarem, o que aumenta a temperatura, algo a que a célula cancerosa é muito sensível. Com isso, poderíamos fazer um tratamento extremamente localizado. Pode ser que venha a acontecer. A pesquisa é isso: você está apostando. Nós, enquanto pesquisadores e intelectuais, temos que pensar nas duas possibilidades – hoje eu não posso [tratar o câncer], mas não é por isso que vou deixar de pesquisar esse caminho. Eu não posso pensar como um empresário ou industrial e dizer que investir nesse tipo de pesquisa é gastar dinheiro. Pode ser que gaste dinheiro, mas é possível que, lá adiante, ganhe muito mais.

 

Há notícias de empresas apostando na volta dos dirigíveis com diversas finalidades. O que o senhor acha disso?

Os dirigíveis não vão substituir o avião, mas há espaço para eles – inclusive, o Brasil é um dos líderes nessa área. Por que os dirigíveis são interessantes? Primeiro, porque estão descobrindo que aviação polui muito. Segundo, porque com o dirigível você pode fazer coisas que o avião não é capaz. É possível, por exemplo, deixar um dirigível estacionado sobre uma área de floresta e estudar a fauna e a flora. Sem contar o fato de que ele acompanha o ar, como uma embarcação. E é uma delícia andar de dirigível.

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