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Alma Mater entrevista doutorada no CBPF e atual pós-doc na EPFL

  • Publicado: Quinta, 13 de Setembro de 2018, 17h43
  • Última atualização em Quinta, 13 de Setembro de 2018, 17h45
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Em sua quarta edição, a seção ‘Alma Mater’ ‒ que conta a trajetória de estudantes que fizeram pós-graduação no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) ‒ entrevista a física experimental Ana Bárbara Rodrigues Cavalcante, atualmente pós-doutoranda no Laboratório de Física de Altas Energias (LPHE), da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça.

 

(Crédito: Reidar Hahn)

 

Ana Bárbara conversou com o Núcleo de Comunicação Social do CBPF sobre sua formação, sua trajetória acadêmica, o papel da mulher na ciência, investimentos em pesquisa e o porquê de sua opção pela física.

 

Fabiana Matos

Especial para o Núcleo de Comunicação do CBPF

 

Onde você faz seu pós-doc?

Sou pós-doutoranda do Laboratório de Física de Altas Energias (LPHE), da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL), na Suíça.

 

O que te levou a essa linha de pesquisa?

Entrei na Universidade Federal do Rio de Janeiro [UFRJ] em 2007 e me interessei rapidamente pelas disciplinas de laboratório. No terceiro período, fiz o curso de métodos computacionais, que me introduziu ao fascinante mundo da programação. Nele, aprendi métodos numéricos para resolver equações diferenciais e integrais, por exemplo. Esse curso me forneceu a base para a iniciação científica com o grupo de altas energias da UFRJ ‒ o LAPE ‒, sob a orientação da professora Sandra Amato.

Na iniciação científica, aprendi sobre física de partículas elementares e fiz uma análise com dados simulados e dados reais do LHCb [um dos detectores do acelerador LHC, do CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares), na Suíça]. Em 2011, trabalhei dois meses no LHCb, período em que me dediquei à caracterização de detectores de pixels para o detector de vértices do LHCb, sob a orientação da pesquisadora Paula Collins.

Trabalhando no CERN, decidi focar minha carreira no desenvolvimento de tecnologias para a detecção de partículas subatômicas. Essa oportunidade apareceu em 2014, quando me tornei aluna de Ignácio Bediaga [pesquisador titular do CBPF], por meio de um doutorado-sanduíche. Com isso, passei dois anos no CERN, sob a supervisão do pesquisador Christian Joram. Nesse período, trabalhei com a montagem e concepção de equipamentos experimentais para a caracterização das fibras cintilantes, parte ativa do futuro detector de trajetórias do LHCb ‒ o LHCb SciFi Tracker ‒, que começará a ser instalado a partir do ano que vem.

 

 

Teste com feixe de prótons em um detector Cherenkov, em escola no Fermilab (EUA)

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

 Levando em conta, agora, sua experiência internacional, sentiu alguma diferença, em termos de recursos e incentivos, em relação ao Brasil? 

Sem dúvida. A diferença é notável. No Brasil, especialmente agora, com os orçamentos do MCTIC [Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações] e do MEC [Ministério da Educação] recebendo cortes consecutivos, vários projetos estão empacados ou foram terminados. Na EPFL, toda semana, recebo novos e-mails sobre diversas oportunidades de recursos para investimento em novas ideias, projetos e start-ups

Felizmente, não tive dificuldades, mas tenho amigos [no Brasil] que sofreram bastante com os atrasos de bolsa e falta de incentivo.

 

“Na EPFL, toda semana, recebo novos e-mails sobre diversas oportunidades de recursos para investimento em novas ideias, projetos e start-ups” 

 

Vi que você participou de eventos no CBPF sobre mulheres na ciência. Notou diferença entre o papel feminino na ciência no Brasil e onde você está agora?  Teve dificuldades aqui no Brasil em sua formação motivada por questão de gênero?

Para responder à sua pergunta, gostaria de elencar dois exemplos de ações das quais estou a par no CERN e na EPFL. O primeiro deles: em 2015, a ONU [Organização das Nações Unidas] estabeleceu o Dia Internacional da Mulher na Ciência: 11 de fevereiro. A partir de 2016, o CERN desenvolveu um projeto convidando engenheiras, físicas e cientistas da computação para fazer apresentações em escolas públicas locais, para mostrar que mulheres também podem fazer ciência, bem como engajar e incentivar meninas a seguirem carreira científica.

Segundo exemplo: a EPFL tem um plano de ação desafiador ‒ que começou ano passado e se estenderá até 2020 ‒ para atingir a equidade de gênero em todos os níveis dessa instituição: de estudantes de graduação até professores e profissionais de cargo permanente. Mesmo com esse planejamento, os resultados mostram que vai ser difícil eles atingirem o objetivo até o prazo final.

Nas instituições do Brasil em que eu trabalhei, não ouvi falar sobre iniciativa alguma desse tipo sendo promovida pelas próprias instituições. Na verdade, percebo que as mulheres são ‘invisibilizadas’ na academia, e, mesmo quando há um esforço das próprias mulheres para dar abertura a uma discussão, falar sobre assédio na academia, por exemplo, não é dada a relevância que o assunto deveria receber. Pior: as iniciativas andam para trás, porque não têm a receptividade adequada, uma vez que, em geral, são os homens quem decidem se a discussão de gênero é importante ou não.

Recentemente, foi publicado [nos EUA] relatório sobre o assédio sexual de mulheres, mostrando que de 30% a 60% delas ‒ nas áreas de ciência, engenharias e medicina ‒ sofreram assédio na universidade. Isso mostra que devemos, antes de discutirmos o papel significativo da mulher na ciência, educar os homens. Temos que criar protocolos de conduta. Quantas mulheres no Brasil não foram assediadas na academia? Quantas estavam preocupadas com a atitude do colega/professor assediador e não conseguiram focar no trabalho que deveria ser feito? No Brasil, todas essas questões e discussões estão muito atrasadas.

Eu, particularmente, não tive dificuldade alguma motivada por questão de gênero, mas conheço inúmeras mulheres que, infelizmente, não tiveram a mesma sorte.

 

“Temos que criar protocolos de conduta. Quantas mulheres no Brasil não foram assediadas na academia? Quantas estavam preocupadas com a atitude do colega/professor assediador e não conseguiram focar no trabalho que deveria ser feito? No Brasil, todas essas questões e discussões estão muito atrasadas”

 

 

O que é o SHiP-charm?

SHiP é um experimento voltado para a busca de matéria escura, de oscilações de neutrinos e da origem da assimetria bariônica [entre matéria e antimatéria] no universo. É um experimento de alvo fixo, no qual um feixe energético de prótons de 400 GeV vai colidir contra um alvo pesado, onde se espera grande produção de mésons [partículas formadas por quarks e antiquarks] do tipo charmoso e fótons [partículas de luz]. É um experimento que já faz parte de uma colaboração com a participação de diversas instituições, como Instituto Nacional de Física Nuclear [Itália], EPFL e CERN, e que está na fase de P&D (pesquisa e desenvolvimento), mas ainda não foi aprovada sua realização.

O SHiP charm foi proposto para medir a seção de choque [probabilidade de colisão] de mésons charmosos produzidos diretamente por meio da colisão com o alvo e indiretamente por meio de decaimentos secundários, usando o feixe de 400 GeV de prótons do SPS, um dos pré-aceleradores do CERN. Além disso, esse projeto permite testar o uso de diferentes tecnologias para realizar as medidas de trajetórias e tempo.

Uma das tecnologias usadas para fazer a medida das trajetórias no SHiP charm é um detector de fibras cintilantes de 250 micrômetros [milésimos de milímetro] de diâmetro e 40 cm de comprimento. Na EPFL, trabalho com o desenvolvimento desse detector. A luz produzida nas fibras será detectada por detectores especiais [fotomultiplicadoras à base de silício], e o sinal vai ser amplificado e discriminado e, em seguida, enviado para as placas de leitura. As informações sobre esses eventos serão armazenadas localmente. Esperamos realizar as medidas com uma resolução temporal de 500 trilionésimos de segundo.

 

 

No CERN, ao lado de máquina que mede o diâmetro das fibras cintilantes

(Crédito: Ignácio Bediaga)

 

 E, para finalizar, por que escolheu física?

Desde criança, eu me interessava muito pelas ciências em geral. No ensino médio, gostava de resolver os exercícios e desafios do livro de física, e cada aula trazia uma curiosidade que me fazia refletir sobre determinado fenômeno. A física me desafiava. E continua me desafiando.

Como aluna do Colégio Pedro II [no Rio de Janeiro (RJ)], tive a oportunidade de participar do Provoc [Programa de Vocação] no Departamento de Geologia do Museu Nacional. Lá, analisei amostras de sedimentos, mas percebi que não era o que eu queria estudar. Aliás, descobrir o que não queremos fazer é uma experiência muito válida.

Na época do vestibular, as minhas escolhas eram física e contabilidade. Eu via a segunda opção como uma maneira direta de auxiliar meus pais no trabalho deles. No entanto, quando vi que física não faria parte das matérias específicas para o curso de contabilidade e após conversar com uma tutora do curso, me convenci de que deveria fazer física. Desde o primeiro período da faculdade, tive certeza de que fiz a escolha certa.

 

“No ensino médio, gostava de resolver os exercícios e desafios do livro de física, e cada aula trazia uma curiosidade que me fazia refletir sobre determinado fenômeno. A física me desafiava. E continua me desafiando”

 

Mais informações:

CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/0349628272981825

Oportunidades iguais (em francês): https://actu.epfl.ch/news/comment-offrir-une-meilleure-place-aux-femmes-a--2/

Relatório sobre assédio (em inglês): https://www.nap.edu/catalog/24994/sexual-harassment-of-women-climate-culture-and-consequences-in-academic

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