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Artigo traz análise das relações de trabalho na 4ª Revolução Industrial

  • Publicado: Quinta, 01 de Março de 2018, 13h06
  • Última atualização em Quinta, 01 de Março de 2018, 13h45
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Artigo preparado pelo físico e escritor Alaor Chaves, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Física, para o portal do CBPF, analisa a chamada 4ª Revolução Industrial e como ela já está transformando não só as relações de trabalho, mas também a geopolítica mundial, levando a um cenário global de incertezas.

 

“Do suor do teu rosto comerás o teu pão”, Gênesis 3:19

                            

A Revolução Industrial (RI), que teve início em meados do século 18, tem passado por diferentes estágios, cada um deles envolvendo novas tecnologias de produção e de realização de negócios. Três desses estágios, denominados Primeira, Segunda e Terceira Revolução Industrial, foram amplamente analisados e são bem compreendidos.

O avanço da tecnologia foi o fundamento das três RI, e o elemento fulcral e revolucionário desse avanço foram inovações técnicas que substituíram importantes setores industriais e empresariais por outros inteiramente novos. Novos bens foram inventados e substituíram os antigos, para os quais deixou de haver demanda, o que extinguiu setores industriais ultrapassados. No livro Capitalismo, socialismo e democracia (1942), o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) deu o nome ‘destruição criativa’ a tais tecnologias disruptivas.

Na virada do presente milênio, um conjunto extraordinário de inovações técnicas deu início ao que já se reconheceu como a 4ª Revolução Industrial (4RI). Muitas dessas inovações, na verdade, têm origem mais antiga, mas só no presente século atingiram níveis de avanço capazes de impactar significativamente a sociedade e as expectativas sobre o futuro.

As referidas tecnologias e os novos produtos são nanotecnologia, novos materiais, biotecnologia, veículos autônomos, robótica, inteligência artificial, computação quântica, impressão 3D e internet das coisas. Todas elas se fundamentam na digitalização e no crescimento exponencial do poder de computação, que após certo patamar ‒ o qual já está sendo atingido ‒ gera também poder cognitivo nos computadores. A computação quântica, que, até pouco tempo atrás, era apenas um elenco de avanços científicos, está em vias de se tornar realidade tecnológica, o que promoverá um gigantesco salto no poder computacional e na revolução digital.

O economista alemão Klaus Schwab, fundador e gerente executivo do WEF (sigla, em inglês, para Fórum Econômico Mundial), faz uma análise brilhante e sintética da revolução que ora vivemos no livro The Fourth Industrial Revolution (2016). A posição de CEO do WEF ‒ que, entre outras coisas, organiza o famoso encontro anual em Davos (Suíça), o qual congrega empresários e formuladores governamentais de políticas econômicas ‒ faz de Schwab uma pessoa singularmente informada sobre as mudanças técnicas e econômicas que estamos vivendo.

Neste artigo, falaremos sobre um dos temas do livro: o impacto da 4RI nas relações de trabalho, setor em que a revolução será especialmente disruptiva.

 

A substituição de humanos por robôs é uma das marcas da 4RI

(Crédito: Wkimedia Commons)

 

Destruições criativas

Todas as importantes revoluções tecnológicas afetam os trabalhadores ‒ em alguns casos, de forma dramática. Primeiro, porque a maioria delas substitui o trabalho humano pelo trabalho de máquinas. Algumas ‒ as chamadas destruições criativas ‒ destroem inteiramente certas formas estabelecidas de geração de produtos ou de realização de negócios, o que tira classes específicas de trabalhadores do mercado de trabalho.

Algumas das mudanças no mercado de trabalho já vividas foram gigantescas, mas, por terem sido lentas, não foram proporcionalmente tão dramáticas. Vejamos um exemplo: no início do século 19, a agricultura nos EUA usava 90% da força de trabalho; hoje, ela usa 2%.

Nas destruições criativas das revoluções industriais passadas, os setores produtivos destruídos foram substituídos por outros mais eficientes na geração de riqueza. Estes, mais ou menos agilmente, absorveram com sobra os trabalhadores dispensados, transição essa que foi potencializada pelo crescimento da abrangência e inclusão do setor educacional.

 Entretanto, a 4RI está criando menos postos de trabalho nas novas indústrias do que as revoluções anteriores. Em 2015, 0,5% dos empregos industriais nos EUA estava em empresas que não existiam em 2000; em 1990, 8% deles em empresas inexistentes 1980; em 2000, 4,5% deles em empresas inexistentes em 1990. A tendência tem sido aumentar a produtividade, mas não criar novos produtos que requeiram muitos trabalhadores.  

A automação massiva que tem ocorrido decorre do avanço da digitalização de quase tudo, requer pouco produto novo e reduz drasticamente a demanda por mão de obra no setor de serviços, o qual emprega mais gente na atualidade.

Há alguns anos, entramos na internet das coisas. Objetos diversos, como veículos, maquinários, hotéis, instituições financeiras, imobiliárias e outros, estão ganhando poder cada vez mais sofisticado de conectar-se à internet, criando uma nova web que inclui não só pessoas, mas também objetos inteligentes, que se comunicam entre si, tomam decisões e resolvem problemas com pouca ou nenhuma intervenção humana.

O ganho resultante na eficiência dos serviços suplanta de longe a necessidade de novos produtos ou de mais produtos. Com o avanço da inteligência artificial, em várias atividades, perde-se a distinção entre ser ou não ser humano.

 

Prestador autônomo

Em resumo, a 4RI é um fenômeno distinto de qualquer coisa que já aconteceu na história econômica. Lidar com os novos problemas requer a adoção de políticas inovadoras e audaciosas. A universalização da educação de qualidade não é solução suficiente, embora mais do que nunca necessária.

Schwab afirma que nem políticos, nem empresários têm consciência plena do que vem acontecendo ‒ eu incluiria quase todos os economistas, com realce para o francês Thomas Piketty e seus seguidores.

As relações de trabalho tradicionais – de emprego de um trabalhador por uma empresa – estão ruindo. Cada vez mais, o trabalhador será um prestador autônomo de serviços a empresas ou pessoas. Nessas novas relações de trabalho, os muito hábeis se darão muito bem, mas a grande maioria pode ficar desocupada.

Medidas que ocorrem naturalmente quando há desemprego decorrente de ganhos na produtividade (como a redução da carga de trabalho) e que vêm sido tomadas desde o século 19 não funcionam mais. De fato, não há como regular a jornada de trabalho de um prestador autônomo de serviços, até mesmo porque, frequentemente, o serviço não exige a presença do trabalhador na empresa.

Os efeitos da 4RI serão sentidos não só na distribuição da renda no interior dos países, mas também na equipartição geográfica da riqueza. Na 3RI, a globalização gerou forte migração de empresas dos países desenvolvidos para países onde o baixo custo da mão de obra reduzia custo de produção. Os países que souberam explorar essa oportunidade tornaram-se emergentes e cresceram a taxas muito superiores às dos países ricos.

Certo, há países retardatários nessa dinâmica. Pelo menos, 1,3 bilhão de pessoas sequer atingiram acesso à eletricidade, e um número ainda maior não tem acesso a água potável e serviço de esgoto. Mas, na expectativa dominante, no final deste século, todos teriam saído do estado de pobreza e analfabetismo.

Ocorre que a 4RI pode muito bem reverter essa tendência de progresso geograficamente mais simétrico. Há o severo risco de os países ricos repatriarem suas empresas, substituindo mão de obra barata por máquinas inteligentes e cada vez mais baratas. Até mesmo certos serviços que foram transnacionalizados podem ser repatriados e realizados por máquinas inteligentes.

 

A inteligência artificial força a redefinição entre humano e não-humano

(Crédito: Wikimedia commons)

 

Mundo iníquo e violento?

A migração de pessoas para os países ricos também pode reduzir-se drasticamente, como sinalizam os movimentos xenófobos na Europa e nos EUA. As tensões geopolíticas e também no interior dos países podem se agravar seriamente e tornarem-se incontroláveis.

Não há organizações transnacionais capazes de dar solução a esses problemas, nem vontade política dos governos para isso. Cada país, talvez, tente suas soluções, que terão provavelmente um caráter marcadamente nacionalista.

Enfim, o avanço tecnológico ‒ que se revelou capaz de, em tese, liberar o ser humano da célebre punição divina ‒ corre o risco de resultar num mundo insuportavelmente iníquo e violento. Ou, trocando a crença religiosa pela convicção científica, a evolução darwiniana mostrou-se capaz de gerar inteligência, mas não sabedoria, tampouco altruísmo, em relação a pessoas com quem não nos relacionamos.

 

Alaor Chaves

Professor emérito,

UFMG

 

Mais informações:

WEF (em inglês): https://www.weforum.org/

Chips quânticos: http://portal.cbpf.br/pt-br/ultimas-noticias/dois-chips-quanticos-iniciam-nova-era-na-computacao-quantica 

 

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