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Emérito do CBPF rememora Nobel de Física de 1969, que foi seu colega e colaborador

  • Publicado: Sexta, 31 de Maio de 2019, 17h52
  • Última atualização em Sexta, 31 de Maio de 2019, 18h21
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A convite do Núcleo de Comunicação Social, Constantino Tsallis, pesquisador emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), relembra Murray Gell-Mann, prêmio Nobel de Física de 1969, falecido recentemente. Amigos de longa data, os dois físicos teóricos mantiveram intensa colaboração intelectual e publicaram conjuntamente um livro, bem como vários artigos especializados.

 

Murray Gell-Mann (1929-2019), ‘The Top Quark’: reminiscências

Um gênio se foi. Neste ultimo 24 de maio, morreu, em Santa Fé, no estado do Novo México (EUA), Murray Gell-Mann, aos 89 anos de idade. Nascido em 1929, em Nova York, laureado, em 1969, com o prêmio Nobel, aos 40 anos de idade – por suas notáveis contribuições em física teórica de partículas elementares –, trabalhou nestas últimas décadas na área de sistemas complexos e em linguística.

Não creio que seja oportuno tentar descrever, nestas poucas linhas, a personalidade complexa (cheia de aspectos charmosos e instigantes) de quem imaginou, com genial intuição, a existência dos quarks (componentes básicos de prótons e nêutrons, por exemplo) e cunhou esse nome inspirado na obra do escritor irlandês James Joyce (1882-1941). A chapa dianteira de seu carro tinha a palavra ‘QUARK’ e – como um dos maiores físicos teóricos da segunda metade do século passado – gostava de se autointitular ‘top quark’, como consta na dedicatória que escreveu em minha cópia, em inglês, de seu livro O quark e o jaguar (com tradução para o português).

Simplesmente, evocarei aqui uma ou outra das muitas histórias que compartilhamos por anos – sobretudo, entre 2004 e 2006, período em que convivemos e colaboramos no Instituto Santa Fé (EUA). Nós nos conhecemos em abril de 1999, em circunstâncias decididamente excepcionais: a III Conferência Gordon de Pesquisa sobre os Avanços Modernos em Termodinâmica, em Il Ciocco, perto de Pisa (Itália).

Ao acabar minha palestra naquele evento, sobre entropias não aditivas e mecânica estatística não extensiva, Gell-Mann manifestou grande interesse pela teoria. Pediu-me algo para ler sobre o tema, e lhe dei o único texto que tinha à mão, um exemplar do número especial do Brazilian Journal of Physics, com o título ‘Nonextensive statistical mechanics and thermodynamics’, de 29 de março de 1999, editado por Silvio Salinas, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, e por mim.

Nasceu ali uma amizade que durou até sua morte e que foi a razão principal de minha prolongada visita (em licença sabática do CBPF) ao Instituto Santa Fé, na qual publicamos vários trabalhos, aprofundando a generalização da mecânica estatística de Boltzmann e Gibbs e suas consequências – por exemplo, no escopo do chamado teorema do limite central.

 

Línguas e pássaros

Uma ou outra dessas publicações foram redigidas aos sábados – por vezes, cantando canções populares gregas, que ele conhecia de seus anos de juventude. De fato, ele tinha grande prazer em repetir, com apurada fonética, expressões típicas em dúzias de línguas. Com fluência, só falava o inglês, mas podia reconhecer, entender e analisar formas linguísticas em inúmeros outros idiomas. Sabia, por exemplo, falar frases em português, imitando com perfeição tanto o sotaque carioca quanto o sotaque paulista!

Em uma ocasião, por pura diversão, traduzimos de um italiano de época para o inglês moderno um texto de Nicolau Maquiavel (1469-1527) em que esse pensador renascentista descreve como é difícil mudar paradigmas pessoais.

Murray se interessava muito também por pássaros e pela natureza em geral. Fez com que associações filantrópicas internacionais, como a World Wildlife Fund for Nature, orientassem quantias da ordem de um milhão de dólares à preservação da Mata Atlântica do Brasil, da qual conhecia várias espécies de pássaros – por duas vezes, a Academia Brasileira de Ciências perdeu a chance de tê-lo entre seus Membros Correspondentes.

Tive a alegria de editar, em conjunto com Gell-Mann, o livro Nonextensive entropy: interdisciplinary applications (Entropia não extensiva: aplicações interdisciplinares), publicado em 2004 pela Oxford University Press, coletânea com vários aspectos dessa teoria, cuja origem está em artigo que, ano passado, completou 30 anos e soma hoje mais de 5 mil citações.

 

 

Murray Gell-Mann (esq.) e Constantino Tsallis, no Instituto Santa Fé, por volta de 2005

(Crédito: Arquivo pessoal/ C. Tsallis)

 

 Leis da criatividade

Em uma ocasião, perguntei-lhe informalmente o que andava fazendo. Disse-me que estava prestes a viajar à Califórnia. “Para fazer o quê?”, acrescentei. Resposta: “Para dar uma palestra sobre a criatividade, sobre as leis da criatividade”. Curioso, insisti: “E quais seriam essas leis?, já que, mês que vem, devo dar palestra de caráter geral em Córdoba, na Argentina. Talvez, aproveite para repetir algo a respeito.” Ao que ele respondeu: “A primeira lei é que, se você tem boas razões para estar convencido de algum princípio, tem que acreditar nas suas consequências, em todas elas, por mais estranhas que possam lhe parecer.” “Por exemplo?”, indaguei. “Se você acredita que existem átomos, e que eles estão se movimentando rapidamente no ar desta sala, você tem que acreditar que eles batem na sua cara, bem na sua cara!”, respondeu.

E prosseguiu ilustrando com o espaço-tempo – esse uno indissociável das três dimensões espaciais e do tempo, empregado por Albert Einstein (1879-1955) no início do século passado em sua teoria da gravitação, a relatividade geral – para pavimentar sua convicção de que as leis da natureza devem ser expressas de modo a não depender do observador.

Foi assim que esse mestre do pensar expressou o que entendia por criatividade!

Termino compartilhando as palavras – aqui traduzidas para nosso idioma – que enviei ao Instituto Santa Fé no último dia 24 de maio, quando soube, com tristeza, de sua morte: “O mundo perdeu um de seus maiores gênios da ciência, e eu perdi um amigo muito querido. Vamos sentir, para sempre, a falta de sua alegria de viver e seu conhecimento”

 

Constantino Tsallis

Pesquisador emérito

CBPF

 

Mais informações:

Obituário: https://www.santafe.edu/news-center/news/murray-gell-mann-passes-away-89

Gell-Mann e Tsallis: https://www.amazon.com/Nonextensive-Entropy-Interdisciplinary-Applications-Complexity/dp/0195159772

30 anos da estatística de Tsallis: http://portal.cbpf.br/pt-br/ultimas-noticias/no-30-aniversario-artigo-com-4-5-mil-citacoes-tem-mais-um-resultado-relevante

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