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Filho de pesquisadora emérita escreve sobre a vida e a obra da mãe

  • Publicado: Quarta, 17 de Abril de 2019, 10h59
  • Última atualização em Quinta, 18 de Abril de 2019, 18h02
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O médico cirurgião Roberto Frota-Pessôa, a convite do Núcleo de Comunicação Social, escreve memorial sobre sua mãe, Elisa Esther Maia Frota-Pessôa, pioneira da física no Brasil e pesquisadora emérita do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ).

 

Elisa Frota-Pessôa (1921-2019): à frente de seu tempo

A família era tradicional. Pai advogado, mãe dona de casa e cinco irmãos. Dois seguiram a carreira militar; dois se tornaram advogados. Para Elisa e a irmã, Lourdes, estava reservado o papel de ter filhos e cuidar bem deles e da casa.

Um episódio exemplifica bem que esse destino traçado não iria acontecer. Certa vez um professor propôs alguns problemas na aula de física para que os alunos resolvessem em casa. Ao ter seus exercícios corrigidos, houve um comentário do professor no sentido de que ela deveria ter algum irmão ou o próprio pai, muito interessados em física, resolvendo os problemas para ela. Esse comentário motivou uma reação imediata da Elisa, que sugeriu que o professor a chamasse ao quadro-negro e propusesse um problema para ela resolver de imediato. Isso foi feito e após vencer esse desafio o mestre passou a incentivá-la em sua futura carreira.

 

Elisa Esther Maia Frota-Pessôa

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Elisa casou-se aos 18 anos ‒ como costume à época ‒ com Oswaldo Frota-Pessôa (1917-2010), biólogo que, inclusive, tinha sido seu professor. Eles tiveram um casal de filhos: eu, Roberto, médico cirurgião, e minha irmã, Sonia, física teórica ‒ ambos cariocas. Isso não foi motivo para interromper sua formação em física pela Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil ‒ posteriormente, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Amamentou seus filhos entre idas e vindas ao laboratório.

 

Com a filha, Sonia, também física

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Em 1949, participou da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), ao qual se dedicou inteiramente, tendo sido uma das duas autoras do primeiro trabalho científico publicado pela instituição.

Após o casamento ter se dissolvido, separou-se ‒ o que, à época, era motivo de severas reprimendas. Enfrentou todas.

Casou-se novamente com Jayme Tiomno (1920-2011), físico como ela, tendo essa união mais de 60 anos por ocasião da morte do marido.

 

Com o segundo marido, Jayme Tiomno, físico teórico

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Fase muito difícil

Seu caráter e sentimento de justiça eram características muito fortes. Lembro-me bem, ainda menino, de uma tarde em que recebi em casa várias caixas de vinho de alta qualidade com um cartão. Quando ela chegou do trabalho, do CBPF, corri para dar-lhe a notícia. Ela leu o cartão e imediatamente telefonou, exigindo que viessem retirar os vinhos no mesmo dia. Tratava-se de um presente de fim de ano enviado por um pai cujo filho (aluno dela) faria prova final. Ficou tão indignada que se julgou impedida de participar da banca examinadora.

Em 1958, foi trabalhar, em Londres, com o professor Eric H. S. Burhop (1911-1980), tendo lá permanecido por dois anos.

Em 1964, com o governo militar instalado no Brasil, começou uma fase muito difícil na vida da família. Inicialmente, houve muita esperança em relação à Universidade de Brasília (UnB), onde Jayme e Elisa foram lecionar e realizar suas pesquisas. Era uma proposta muito avançada para uma universidade, o que atraiu professores de comprovada competência.

Muitos alunos seguiram seus mestres, matriculando-se na UnB. Aqui, é importante salientar a dedicação que ela tinha à formação de novos físicos. Seus alunos ‒ que se projetaram na pesquisa e no ensino da física, no Brasil e exterior ‒ sempre estiveram presentes em sua vida. A amizade entre ela e eles era grande. Alguns chegaram a formar um grupo que se denominava GOELT (Grupo dos Oito da Elisa e Tiomno), cujos membros se reuniram inúmeras vezes ao longo dos anos ‒ muitos vindos de outros estados.

A esperança de uma universidade nova foi logo apagada com a invasão militar do campus em 1965, tendo motivado a saída da grande maioria dos professores. Elisa e Jayme foram, então, trabalhar em Trieste, na Itália, onde permaneceram por um ano.

Em 1968, Jayme participou do concurso para catedrático na Universidade de São Paulo, e foram trabalhar, ele como catedrático e ela como pesquisadora nessa universidade.

Elisa e Jayme tinham a vida voltada para a física e jamais participaram politicamente de qualquer partido, mas, evidentemente, tinham opiniões sobre o que estava ocorrendo no país. Isso bastou para que fossem, em maio de 1969, cassados e impedidos de trabalhar pelo Ato Institucional número 5 (AI-5). A física representava grande parte da vida de ambos, e os anos que se seguiram foram muito sofridos.

Aqui vale uma referência à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC), que, nesse momento, ofereceu para que lá continuassem suas pesquisas, ainda que sem vínculo institucional.

Em 1971, ela e Jayme foram para a Universidade de Princeton (EUA) e lá permaneceram por dois anos. Ao regressarem ao Brasil, já com o início da distensão política, foram, inicialmente, contratados pela PUC-Rio e, posteriormente, reintegrados ao CBPF, onde Elisa trabalhou até o final de sua carreira, tendo, após os 70 anos, permanecido como pesquisadora emérita da instituição, na qual Jayme também se tornou emérito.

 

Em seu aniversário, com o filho, Roberto, médico cirurgião

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Além da física

Elisa gostava muito de arte (principalmente, pintura). Incentivou vários pintores e adquiriu, ao longo da vida, muitas obras ‒ grande parte delas de artistas não consagrados. Era com enorme prazer que tinha as paredes de sua casa cobertas por esses quadros, tendo mantido relação de amizade com vários artistas.

 

Com Jayme (à dir.), Roberto (centro, camiseta cinza), Sonia (à dir.), netas e bisnetos

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Elisa teve cinco netas e uma relação próxima com todas elas. Meu avô tinha uma casa em Lambari (MG), e, nas férias, lá íamos ‒ primeiramente eu, minha irmã e primas; em seguida, com o passar do tempo, nossas filhas. Esses encontros são até hoje lembrados com muita saudade.

Ao falecer, em 29 de dezembro do ano passado, Elisa tinha oito bisnetos e uma bisneta. Por dois meses, não viu o nascimento da primeira trineta.

Foi, sem dúvida, uma mulher à frente de seu tempo.

 

Roberto Frota-Pessôa

Médico cirurgião

Membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

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