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Livro-ensaio de pesquisadores do CBPF demonstra erudição e oferece reflexões relevantes

  • Publicado: Quarta, 24 de Janeiro de 2018, 18h19
  • Última atualização em Quarta, 24 de Janeiro de 2018, 18h26
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RESENHA

O físico e escritor Alaor Chaves, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Física, resenha, a convite do Núcleo de Comunicação Social do CBPF, a obra O livro, o espaço e a natureza: ensaio sobre a leitura do mundo, as mutações da cultura e do sujeito, de Francisco Caruso e Roberto Moreira.

 

Em O livro, o espaço e a natureza: ensaio sobre a leitura do mundo, as mutações da cultura e do sujeito, Francisco Caruso e Roberto Moreira ‒ respectivamente, pesquisador titular e pesquisador aposentado do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ) ‒ fazem uma análise histórica e filosófica das dinâmicas interativas e retroalimentadoras da evolução da escrita, do livro e da cultura humana.

Como já informado na apresentação do ensaio, esse é um tema pelo qual os autores cultivam longo interesse. Uma análise preliminar do assunto foi publicada em 1997 em um artigo escrito em italiano, com escopo limitado à interação entre as evoluções do livro e da visão humana do espaço físico e simbólico. No presente ensaio, o escopo é muito ampliado para incluir temas como o tempo, o sujeito (sua identidade, seu papel no mundo e seu destino último), a religião, as artes, a organização social, a tecnologia, a cosmologia e outros.

O ensaio mostra que os autores acumularam considerável erudição e relevantes reflexões sobre os temas abordados. Com uma vasta experiência na escrita de livros, desenvolveram também um estilo límpido e agradável de redação. Houve um claro esforço, bem-sucedido, para que a apresentação fosse didática.

O ensaio é muito bem ilustrado ‒ o que é incomum em ensaios ‒, e sua paginação resulta numa ótima arquitetura. Sua leitura gerará prazer no leitor típico, e em não poucos inspirará frequentes reflexões pessoais sobre as ideias apresentadas, do que resultará inevitavelmente uma ou outra discordância. Li, aprendi, gostei muito, concordei e discordei. Senti falta de um index.

A história é apresentada numa perspectiva ocidental em que muitos precedentes científicos e tecnológicos orientais são ignorados ou apenas brevemente mencionados ‒ às vezes, em notas de rodapé ou indiretamente por meio de referências citadas. Uma destas é o livro O roubo da história: como os europeus se apropriaram de ideias e invenções do Oriente (Jack Godoy, citado na p. 68).

Nas muitas citações, os autores dão talvez mais atenção à evolução das ideias filosóficas do que aos detalhes históricos. O filósofo francês de origem russa Alexandre Koyré (1892-1964) é o autor mais citado no texto ‒ isso é compreensível, pois no limitado espaço do ensaio não há como tratar mais explicitamente todos os temas que os autores abordam ou tangenciam.

Após mencionar que a cultura e a tecnologia foram iniciadas pelos hominídeos que nos antecederam, o ensaio dá um enorme salto e retoma a história com os gregos, os criadores da cultura ocidental. Talvez a invenção verdadeiramente seminal dos gregos tenha sido a do sujeito individualizado, que deu origem às suas epopeias, suas tragédias, suas variadas filosofias, à retórica e à democracia.

Primeiro, apontam os autores, essa nova cultura transmitiu-se por via oral e, após Platão (c.428-c.348 a.C.), por via escrita. A escrita opera como um verdadeiro fermento de ideias e inovações culturais, pois possibilita o diálogo entre o leitor e os autores que lhe são remotos no tempo e no espaço.

 

Desaparecimento do indivíduo

Inicialmente, a filosofia grega buscou os fundamentos últimos do universo. Com sua postura individualista, a maioria dos discípulos contestou seus mestres, do que surgiram inúmeras propostas para o que seria o elemento unificador do cosmo. Sócrates (c.470-399 a.C.) dá outro enfoque à filosofia na qual o ser humano é o centro das reflexões. Seu discípulo Platão dá origem à filosofia mais abrangente que combina as reflexões sobre os humanos e sobre o universo. A geometria adquire um papel central na obra de Platão, inovação que acompanha a ciência e a filosofia até hoje.

A escrita, que muito avançou com a invenção do alfabeto grego, levou a importantes mudanças na história do pensamento. Como apontam os autores, apoiando-se em citações ao classicista britânico Eric A. Havelock (1903-1988), a escrita leva à importante transição entre a mera descrição de fatos e a reflexão sistematizada sobre eles.

Como suporte físico, a escrita teve inicialmente o rolo de pergaminho. Bem no início da era cristã, inventou-se o códice para suporte da escrita. Os cristãos tiraram muito mais proveito que os pagãos e judeus das vantagens do códice, o que muito contribuiu para o alastramento do cristianismo e a criação da cultura da Idade Média.

Na Idade Média, o poder predominante foi a Igreja, que arquitetou toda a visão do sujeito, monopolizou a posse do livro e definiu a interpretação dos textos de forma dogmática ‒ discordar do dogma era heresia, punível com a morte. Os espaços físico e simbólico eram tridimensionais e hierarquizados, como instruía o modelo aristotélico. O sujeito individualizado desapareceu, e o objetivo da vida passou a ser a salvação da alma.

O universo cíclico das religiões orientais, trazido à Grécia por Pitágoras (c.570-c.495 a.C.), foi esquecido, pois a Bíblia constitui uma narrativa com visão linear do tempo, desde a criação até o juízo final. A cultura árabe tomou a frente da cultura cristã, embora a Idade Média europeia, no seu final, fosse marcada por significativo avanço na tecnologia mecânica.

 

Futuro incerto

Em 1455, a Europa reinventou tardiamente a imprensa, mas esta nasceu com enorme vigor e grandes avanços técnicos. Em 1501, nos ensinam os autores, 250 cidades europeias já produziam livros. A imprensa europeia promove a passagem para a idade moderna. Ressurge o sujeito individualizado, cheio de contestações e ideias inovadoras.

O Renascimento, a Revolução Científica e o Iluminismo sucederam-se de maneira talvez inevitável e, no século 18, levaram à Revolução Tecnológica e à democracia contemporânea. Na Revolução Científica, os aparatos mecânicos (principalmente o relógio) inspiraram a filosofia mecanicista que o físico e matemático britânico Isaac Newton (1642-1727) sintetizou numa teoria matemática e unificada do mundo mecânico.

Desde Nicolau Copérnico, o ego humano foi significativamente rebaixado por avanços da ciência. Com esse astrônomo polonês (1473-1543), o homem perdeu o privilégio de ocupar o centro do universo; com o naturalista britânico Charles Darwin (1809-1892), deixou de ser a obra final que Deus criou à sua imagem e semelhança; com o psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), deixou de ser conduzido inteiramente pela racionalidade.

Mas a maior das mudanças ‒ cujo início estamos vivendo ‒ tem futuro tão incerto que os autores cautelosamente lhe dedicam pouca atenção. A inteligência artificial muito provavelmente extinguirá a história, no seu sentido tradicional. O ciberespaço já está sendo compartilhado com objetos inteligentes variados cuja capacidade de digestão e análise de dados é muito superior à nossa. Lenta e talvez inexoravelmente, dissolve-se a divisória entre ser ou não humano.

 

Serviço:

 

Livro: O livro, o espaço e a natureza: ensaio sobre a leitura do mundo, as mutações da cultura e do sujeito

Autores: Francisco Caruso e Roberto Moreira

Editora: Livraria da Física (São Paulo, SP)

Páginas: 156

Preço sugerido: R$ 35,00

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