Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Últimas notícias

'Memória por Imagem' traz carta relativa à prisão de M. Schenberg, há 70 anos

  • Publicado: Quarta, 30 de Maio de 2018, 15h06
  • Última atualização em Quarta, 30 de Maio de 2018, 15h06
  • Acessos: 755

MEMÓRIA POR IMAGEM

 

(Crédito: Memória por Imagem/Biblioteca CBPF)

 

Antonio Augusto Passos Videira ‒ professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador colaborador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) ‒ comenta carta do acervo ‘Memória por Imagem’. O tema deste mês é a prisão, no Brasil, de um dos físicos teóricos mais renomados do hemisfério Sul.

 

Se olhada com atenção, a lista de membros fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), não contém um nome óbvio: Mário Schenberg (1914-1990).

A fundação do CBPF ocorreu em janeiro de 1949. E Schenberg era, certamente, um dos físicos mais importantes do hemisfério Sul ‒ e não apenas do Brasil. Além de seu renome internacional como cientista, Schenberg, nascido em Recife (PE), havia contribuído ‒ ainda que de forma indireta ‒ para criar as condições necessárias para o surgimento deste centro de pesquisas.

Mais: em meados da década de 1940, Schenberg atuou como supervisor e colaborador de outros dois jovens físicos e futuros fundadores do CBPF: José Leite Lopes (1918-2006) e Jayme Tiomno (1920-2011), no período em que ambos trabalharam na Universidade de São Paulo (USP).

Por que, então, o nome de Schenberg não consta na ata de fundação do CBPF?

 

Causa de embaraços?

Schenberg foi sempre um defensor da universidade, mas é muito pouco provável que tenha sido contrário à criação de um centro de pesquisa no Brasil. Os ambientes científicos do Rio de Janeiro e de São Paulo guardavam diferenças importantes. A mais comentada à época era a que garantia a existência da dedicação exclusiva aos professores da USP ‒ o que não acontecia, por exemplo, com a Universidade do Brasil (hoje, Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Duas décadas mais tarde, Schenberg se tornaria membro do CBPF ‒ inclusive, professor no período inicial de sua pós-graduação.

O fato de se encontrar ausente do país também não explica a ausência de seu nome como fundador do CBPF ‒ afinal, Tiomno, que estava doutorando-se em Princeton, consta da relação de fundadores.

Como hipótese explicativa para essa ausência, sugerimos que a presença de seu nome poderia causar embaraços tanto aos físicos quanto aos apoiadores do CBPF, dificultando a obtenção de apoio para a agenda político-científica daquela nova instituição.

Como era sabido, Schenberg era comunista.

 

César Lattes, Martha Lattes e Mário Schenberg

(Crédito: Memória por Imagem/Biblioteca do CBPF)

 

Sem passaporte

No início de 1948, após a cassação do registro eleitoral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), iniciou-se, país afora, um movimento de repressão às forças de esquerda ou àquelas simplesmente ditas progressistas. Entre os partidos mais atingidos, estava justamente o PCB.

Schenberg havia sido eleito deputado estadual logo após o fim do Estado Novo, em 1946 ‒ o que lhe aumentava a notoriedade. No primeiro semestre de 1948, foi preso juntamente com outras lideranças comunistas. Sua detenção durou meses. A carta que abre este texto é um pedido de visita solicitado pelo físico austríaco Guido Beck (1903-1988) à Superintendência de Segurança Política e Social do Estado de São Paulo. 

Ao ser posto em liberdade, ainda em 1948, prevalecia já o clima da Guerra Fria. Sem ambiente na USP ‒ onde havia se formado em 1936 e era catedrático de mecânica racional desde 1944 ‒, Schenberg optou pelo autoexílio, radicando-se na Bélgica até 1953, ano de seu retorno ao país.

A calmaria duraria apenas uma década.   

Por ocasião do golpe civil-militar de 1964, Schenberg foi novamente preso e interrogado pelos órgãos de segurança. Em maio de 1969, seria cassado pelo AI-5, juntamente com Tiomno, Leite Lopes, Plínio Sussekind Rocha (1911-1972), Elisa Frota-Pessôa e Sarah de Castro Barbosa.

Sem passaporte, Schenberg, dessa vez, ficou no Brasil, sem poder frequentar a USP, mas, ainda assim, trabalhando em física. O primeiro número da Revista Brasileira de Física (1971) traz um artigo seu sobre gravitação e eletromagnetismo.

 

Antonio Augusto Passos Videira

Pesquisador colaborador

CBPF

Departamento de Filosofia

UERJ

 

Mais informações:

Sonja Ashauer (‘Memória por Imagem’): http://portal.cbpf.br/pt-br/ultimas-noticias/fotografia-de-pioneira-mundial-da-fisica-lanca-memoria-por-imagem

70 anos do méson pi (‘Memória por Imagem’): http://portal.cbpf.br/pt-br/ultimas-noticias/producao-artificial-do-meson-pi-teve-ampla-repercussao-na-midia-norte-americana-na-decada-de-40

Memória por Imagem: http://portal.cbpf.br/pt-br/paginas-internas/biblioteca/memoria-por-imagem

Biblioteca do CBPF: http://portal.cbpf.br/pt-br/sobre-a-biblioteca

 

registrado em:
Fim do conteúdo da página