Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Últimas notícias

Pós-graduanda do CBPF analisa a desigualdade de gêneros nos dias de hoje

  • Publicado: Quinta, 08 de Março de 2018, 11h02
  • Última atualização em Segunda, 12 de Março de 2018, 10h24
  • Acessos: 1732

Maria Daniela Leite de Souza, pós-graduanda do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), preparou, a convite do Núcleo de Comunicação Social, texto em que analisa a questão da mulher na atualidade, apontando que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que se chegue a uma equidade entre gêneros.

 

A (IN)EQUAÇÃO DE GÊNERO

O ‘Dia Internacional da Mulher’ (8 de março) é comemorado como símbolo da luta e resistência de um grupo de mulheres que objetivavam coisas semelhantes às que as atuais feministas buscam: convergir para uma sociedade em que a equação de direitos tenha os mesmos coeficientes para as variáveis de gênero. E o que isso significa, afinal? E por que é importante reforçar a questão de direitos feministas?

Desde os mitos primitivos ‒ como ‘Gênesis’ ou ‘Pandora’ ‒, a mulher é caracterizada como a responsável pela infelicidade, pelos vários males da sociedade e é sempre colocada como figura inferior, que deve seguir as regras ditadas por uma sociedade majoritariamente patriarcal. Na Idade Moderna, por exemplo, a ‘caça às bruxas’ e a Inquisição mataram milhares de mulheres.

E, por séculos, a história prosseguiu assim. Porém, nesses cenários de injustiça, sempre esteve presente, em graus variados, um sentimento profundo de inconformismo à subordinação, um desejo de mudança, a busca por um novo paradigma.

O fato de o trabalho doméstico e o cuidado da família ter sido sempre atribuído às mulheres gerou ‒ e tem gerado ‒ oportunidades completamente desiguais entre os gêneros. E isso não só consome tempo das mulheres, mas também limita recursos que deveriam ser investidos em suas formações profissionais ou no trabalho.

 

Longe da equidade

É na tentativa de conseguir o direito ao trabalho ‒ e, como consequência, reparametrizar as variáveis de uma equação injusta ‒ que emergem os primeiros traços de luta. Há cerca de 100 anos, os movimentos feministas ganharam força na Europa e ‘viralizaram’ ‒ não sem enfrentar obstáculos consideráveis ‒, chegando a outros continentes, convergindo para o modelo atual, em que a maior parte das mulheres modernas tem consciência de seus direitos e suas capacidades (físicas e intelectuais), buscando progressivamente direitos, respeito e o rompimento da cultura patriarcal.

Nesse sentido, uma conquista relativamente recente foi a de trabalhar fora de casa, garantindo seu próprio salário (e independência financeira) ‒ mesmo que, sobre os ombros de muitas, ainda recaia uma jornada extra de atividades que inclui trabalhos domésticos e atenção aos filhos.

Mesmo com a ascensão e o crescente número dos movimentos feministas no mundo, temos ainda uma equação que não fecha. E está longe de convergir para a equidade, pois seus coeficientes são bem desproporcionais (e nada satisfatórios) quando comparados aos da equação que descreve o universo masculino. Vão desde questões de igualdade salarial ou representatividade em cargos de liderança até as condições de trabalho, nas quais, não raramente, preconceitos e assédio ainda estão presentes.

Essas e outras discrepâncias impõem obstáculos ‒ por vezes, intransponíveis ‒ ao empoderamento das mulheres, em vários setores. No Brasil, para nos determos apenas a um exemplo, os salários das mulheres chegam a ser 30% inferiores aos dos homens, quando considerados os mesmos cargos e funções. E isso ocorre em um cenário no qual, segundo o IBGE (2013), somos 51,3% da população!

 

Na seara científica

E você acha que, nas carreiras científicas, isso é diferente? Que nada! São vários os fatores que contribuem para a desigualdade de gêneros. E as origens disso estão nos anos iniciais da escola, quando os meninos são considerados ‘inteligentes’, e as meninas, ‘sensíveis’. Com isso, a visão instituída é a de que eles podem ser cientistas, e nós devemos nos dedicar a atividades que remetem ao cuidado com o próximo. Eis aí um dos resquícios do patriarcado.

Nas séries seguintes, o quadro não muda muito. E o resultado dessa desigualdade imposta a nós, por anos, é ter muito menos mulheres do que homens ingressando em carreiras científicas no nível superior.

Estudo publicado pela Elsevier ‒ intitulado ‘Gender in the global research landscape’ (algo como ‘Gênero no cenário da pesquisa global’) ‒ mostra que, em um universo de 5,5 milhões de artigos e 27,3 milhões de autores, cerca de 70% da produção científica têm autoria masculina. O objetivo dessa avaliação ‒ baseada em dados acumulados ao longo de 20 anos, de 12 países e 27 áreas ‒ foi entender as relações de gênero no campo científico e como elas afetam a produtividade.

Uma das conclusões do relatório é que, em termos de produtividade, o número de citações é praticamente igual quando se comparam homens e mulheres. Ou seja, mesmo que elas publiquem menos, a qualidade de seus artigos é tão boa quanto a dos homens.

Ainda segundo o estudo, as áreas com menor concentração de mulheres (cerca de 25%) são física e matemática. Já em educação, esse percentual chega a 70%; em psicologia e enfermagem, 45% ‒ números que valem para vários países. Porém, mesmo nas áreas onde não há tanta disparidade entre gêneros, as posições de liderança são majoritariamente ocupadas por homens, reflexo de um ‘efeito de afunilamento’.

E por que isso acontece? As causas são várias. Duas delas: i) pressão familiar; ii) ambiente de trabalho ‒ eu mesma já ouvi casos de colegas que sofreram algum tipo de bullying só pelo fato de serem mulheres; que foram ‘julgadas’ com base nos vestidos ou batons que usavam no trabalho; que foram preteridas por professores porque estes alegavam não orientar mulheres. Por vezes, a pressão é tanta que algumas não veem alternativa senão abandonar a carreira. Ressalte-se: a lista de desconfortos, desigualdades e injustiças é longa.

Portanto, é preciso quebrar paradigmas, romper fronteiras e incentivar meninas a serem cientistas ‒ ou, em um cenário mais amplo, a serem o que elas quiserem ser, pois essa é a essência do feminismo. Mais: é lutar para que possamos ter as mesmas oportunidades e, assim, construir uma sociedade mais justa, na qual a variável gênero não tenha peso estatístico sobre as tomadas de decisão.

Para finalizar, fica aqui o convite: neste 15 de março (quinta-feira), será comemorado o ‘Dia das Mulheres do CBPF’. O evento ‒ em local e horário ainda por serem definidos ‒ será aberto a alunas, servidoras e funcionárias da instituição. Na ocasião, vamos discutir questões de gênero e os principais desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. 

 

Maria Daniela Leite de Souza

Pós-graduanda

CBPF

 

Mais informações:

‘Gender in the Global Research Landscape’:

https://www.elsevier.com/__data/assets/pdf_file/0008/265661/ElsevierGenderReport_final_for-web.pdf

Cientistas feministas:

https://cientistasfeministas.wordpress.com/category/em-off-feminismo/

Feminismo em comum: para todas, todes e todos, de Márcia Tiburi (Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2017)

registrado em:
Fim do conteúdo da página