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Primeira orientação a distância no CBPF tem resultado animador

  • Publicado: Quarta, 27 de Dezembro de 2017, 14h46
  • Última atualização em Quarta, 03 de Janeiro de 2018, 00h54
  • Acessos: 209

Quando se inscreveu para participar da Escola Avançada de Física Experimental (EAFExp) de 2017, oferecida pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), Julie dos Santos não imaginava que a experiência a levaria tão longe – mesmo sem sair de sua cidade na maior parte do tempo. Com o término do evento, Julie foi selecionada para uma iniciação científica no CBPF. Detalhe: ela é aluna do bacharelado em física da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), em Barreiras, cidade a cerca de 600 km de Brasília e a quase mil quilômetros de Salvador. Mais: sua orientação foi feita a distância, algo inédito no CBPF.

O desafio foi encarado pelo pesquisador emérito do CBPF Alberto Passos Guimarães, e os resultados desse trabalho renderam uma menção honrosa no Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada (ENFMC), ocorrido em agosto do ano passado em Búzios (RJ). Mais do que isso: criou a certeza que existem novos caminhos para que o CBPF cumpra sua missão de ser um centro de pesquisa de alcance nacional, ainda que muitos obstáculos precisem ser vencidos para aperfeiçoam uma modalidades de orientação como essa.

“Foi uma oportunidade única. O professor Alberto se dispôs, e eu acho isso muito bacana. Ele tem esse compromisso de pensar: tem alguém lá no interior da Bahia, vou ajudar”, diz Julie.

Ela conversou com o Núcleo de Comunicação Social do CBPF por meio do aplicativo Skype, o mesmo que usou para se comunicar com Guimarães no período de orientação.

O encontro entre Julie e Guimarães aconteceu com a ajuda de Flávio Garcia, pesquisador do CBPF e organizador da EAFExp. Procurado pela jovem, Garcia não pôde aceitar a orientação, uma vez que seu trabalho exige presença física para o uso dos equipamentos. Ele, então, pensou em Guimarães, que trabalha com simulações computacionais, algo que pode ser feito a distância.

“Ele propôs a orientação. Acredito que é uma forma de aumentar o alcance do CBPF e estimular o estudo”, diz Guimarães.

 

 

Julie dos Santos em sua primeira visita ao CBPF, durante a EAFExp

(Crédito: Divulgação EAFExp)

 

Acesso remoto

O trabalho de Julie envolveu simulações numéricas para entender o comportamento de amostras magnéticas quando sob o efeito de um campo magnético externo. Para realizá-lo, ela teve acesso remoto a dois computadores do CBPF, onde a aluna rodava as simulações por 30 ou 40 horas por vez, para obter os dados para a pesquisa.

Das atividades constavam ainda conversas online todas as sextas-feiras; indicações de leitura sobre magnetismo e nanomagnetismo; discussões sobre a literatura e sobre os resultados alcançados, sempre enviados antecipadamente ao orientador por correio eletrônico.

A ajuda institucional da UFOB, que tem 11 anos de existência e cujo curso de graduação em física foi aprovado apenas em 2008, foi essencial para que a empreitada desse certo. A universidade cedeu computadores conectados à internet em velocidade bem maior que a de ligações domésticas da cidade e permitiu o uso do laboratório de ensino de física, que é também sala de aula, para as conversas online.

“Um mês antes do Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada, falei com a Julie: que tal o desafio de apresentar um trabalho?”, lembra Guimarães.

“Eram vários desafios. Preparar o trabalho, o resumo em inglês, aprender como fazer o pôster e como se apresentar. Mas, no final, a comissão avaliadora elogiou, e na premiação ela ganhou menção honrosa. Foi um reforço para continuar o projeto”, diz o pesquisador. 

Para a jovem estudante, a experiência foi marcante. “Eu nunca tinha ido a um congresso tão grande. Tive que defender a ideia do meu trabalho -- o tempo de apresentação do pôster era de uma hora, mas eu fiquei mais de duas horas respondendo perguntas, muitas sobre como foi a orientação. Conheci pessoas novas, ouvi professores, conversei com outras pessoas que estudam a mesma coisa que eu. Foi muito bacana”, conta.

Sobre a menção honrosa, Julie se diz supresa. “Eu fui totalmente despretensiosa. Para mim, foi uma oportunidade única que, sendo aqui do interior da Bahia, achei que nunca ia ter, mas tive.”

 

 

Entrega da menção honrosa no ENFMC

(Crédito: Divulgação) 

Interiorização

Para Guimarães, a experiência de orientação a distância mostra que há muitos caminhos para que o CBPF aumente seu alcance e promova a interiorização da física. O pesquisador argumenta que, para a instituição, seria muito positivo incorporar elementos inovadores, que podem ser adaptados para contornar os inconvenientes.

“É o exemplo de como uma ideia simples pode dar frutos. É claro que há limitações na parte experimental, e que a convivência no ambiente acadêmico, que é importante, fica comprometida. Mas o alcance que uma atividade como essa pode atingir é o grande atrativo”, defende.

Há também limitações de ordem burocrática. Julie, por exemplo, não recebeu bolsa de iniciação científica. Entre as razões para isso, segundo Guimarães, o comitê avaliador citou o fato de a bolsa não prever o uso do valor para custear viagens. A jovem recebeu um atestado de participação emitido pelo CBPF.

“É preciso uma reflexão sobre essa modalidade. É uma coisa nova, com grande potencial, se for feita sob condições específicas”, diz Guimarães.

Julie visitou o CBPF presencialmente em duas ocasiões: durante a EAFExp e durante a Escola do CBPF, com recursos oferecidos a estudantes de fora da região metropolitana do Rio de Janeiro. Além disso, foi ao ENFMC com recursos da UFOB.

“Adorei a experiência. Eu tenho todo o suporte aqui [na UFOB], mas a universidade é pequena, o grupo é novo, há poucos doutores e poucos alunos no programa de iniciação científica. Não temos contato com essa pesquisa de ponta. No CBPF, tem coisas que eu nem sabia que existiam; aqui, mal temos um laboratório didático. Só fui saber o que existia nos laboratórios, conhecer os microscópios e outros equipamentos quando fui ao CBPF”, diz a jovem. 

 

Apresentação do trabalho durante a Escola Avançada de Física Experimental de 2017

(Crédito: Divulgação EAFExp)

 

Futuro

Julie continua trabalhando com Guimarães, mas atualmente concentra seus esforços em terminar a graduação e estudar para as provas de mestrado do Exame Unificado Nacional e para o Exame Unificado dos Programas de Pós-Graduação em Física do Rio de Janeiro (Uniposrio). Ela pretende tentar o mestrado no CBPF, entre outras instituições, e seguir a carreira científica. Para um futuro mais distante, os planos não são tão concretos -- afinal, há para ela, jovem, um longo caminho pela frente.

“Quando terminar a pós-graduação, pretendo voltar para minha cidade, porque poucos querem voltar. Acho que é meio que uma missão também: ir para o grande centro, aprender e voltar pra atender outros alunos como eu. Nada está definido ainda; são muitos anos de estudo, mas é uma coisa que penso e acho importante”, reflete a jovem.

Sobre a EAFExp, onde tudo começou, Julie é enfática: “Eu faço propaganda da escola. Tem muita gente agora querendo tentar.”

 

Saiba mais

EAFExp 2018

http://mesonpi.cat.cbpf.br/eafexp2018/

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