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Vice do CBPF discute ciência e jornalismo na crise

  • Publicado: Sexta, 24 de Abril de 2020, 17h25
  • Última atualização em Sexta, 24 de Abril de 2020, 17h53
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O tecnologista sênior Márcio Portes de Albuquerque, vice-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), escreveu artigo, para o Jornal da Ciência, publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, sobre o fortalecimento e a popularização do papel da ciência e do jornalismo em tempos da pandemia da covid-19.

 

Crises: ciência e jornalismo*

Guerras, pandemias, catástrofes, colapsos de nações, entre outras crises, são lamentáveis. O principal motivo é porque ceifam vidas – por vezes, como neste momento, em escala planetária. Mas um velho ditado diz: crises são também tempos de oportunidades. E não só a de estender nossa solidariedade a quem precisa de ajuda, mas também a de pôr à prova nossa criatividade, em busca de soluções de problemas que vêm com esses períodos de exceção.

Por mais nefastos que sejam os conflitos armados – principalmente, os de grandes proporções –, devemos nos lembrar de que eles nos legaram invenções que hoje nos trazem bem-estar. A Primeira Guerra nos deu os aparelhos de raios X portáteis, o controle aéreo, o aço inoxidável, os bancos de sangue, o relógio de pulso, os drones, o absorvente feminino etc. Da Segunda Guerra, temos os antibióticos, a energia nuclear, os aviões a jato, o radar, os grandes computadores, a borracha e o óleo sintéticos etc.

Crises nos obrigam a ver, com clareza, o essencial. A vida, sem dúvida, o é.

A sociedade confinada está nos ensinando também sobre prioridades e definições de valores. Um resultado desta crise é o aumento da consciência do grande público de que a ciência e suas instituições têm papel central no enfrentamento de um cenário em que milhares de vidas humanas foram perdidas – e, infelizmente, muitas mais o serão. Essa pandemia também acentuou a importância do jornalismo profissional, sério e imparcial.

Essas duas atividades ‒ ambas intelectuais, a seus modos ‒ têm revelado seus valores no enfrentamento de duas mazelas do mundo contemporâneo: o obscurantismo e as fake news. A boa ciência, disseminada pelo bom jornalismo, tem se mostrado fundamental para a tomada de decisões políticas que visam ao bem-estar das populações.

O acesso amplo do grande público ao conhecimento científico – que deveria ser um direito fundamental dos povos – está relacionado com o pleno exercício da cidadania, com liberdade, justiça e equidade social, pois informa, conscientiza e, assim, salva vidas. O obscurantismo engana propositalmente, prejudica ‒ principalmente, os setores mais vulneráveis da população ‒ e pode matar.

O poeta britânico John Donne (1572-1631) escreveu que a morte, de qualquer pessoa, o diminuía, por ele ser parte integrante da humanidade. Nesse sentido, todos nós sairemos menores (e entristecidos) dessa pandemia. Mas, desse cenário lamentável, estão brotando novos valores. Entre eles, o regaste do papel do Estado ‒ sem dúvida, ganhou força a importância do Sistema Único de Saúde para a sociedade brasileira.

Ao fim desta crise, teremos mais conhecimento científico para enfrentar pandemias ‒ e, quiçá, menos obscurantismo no mundo. Novas tecnologias trarão mais bem-estar para as populações e riqueza para as nações. As primeiras sementes já brotam do solo calcinado: a valorização da ciência e do jornalismo. E isso não é pouco, certamente.

 

Sobre o autor:

Márcio Portes de Albuquerque é doutor pelo Instituto Politécnico de Grenoble (França) e vice-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), onde é tecnologista sênior.

*Fonte: Jornal da Ciência (SBPC), edição 6.381, 22 de abril de 2020

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