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Alma Mater

Doutora pelo CBPF, física decide empreender

  • Publicado: Segunda, 07 de Dezembro de 2020, 18h44
  • Última atualização em Segunda, 07 de Dezembro de 2020, 19h17
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Não dava para imaginar que a pequena Carolina Cronemberger, de oito anos de idade, vegetariana, ‘natureba’ e já militante mirim fosse exercer uma força de persuasão significativa na então mulher, mãe e pós-doutoranda em física na Europa.

A consciência ambiental nunca abandonou Carol – como é mais conhecida. Então, em seu pós-doc, ela respirou os ares da Holanda, França e Alemanha, onde fluem as ideias e os ideais de um mundo mais verde e sustentável. O novo ambiente criou as condições necessárias e suficientes para gerar uma mudança de fase significativa na vida da doutora em magnetismo pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro (RJ).

A pesquisadora viraria empresária, e passaria a empreender na área de cosmética, na qual poderia derramar, misturar, aquecer, diluir e macerar as paixões dormentes da Carol de oitos anos.

Com essa ideia na bagagem e com vários cursos no currículo, Carol largou seu emprego de engenheira de software na Holanda e voltou com a filha para a cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu. Hoje, é dona da Cosmoética, empresa carioca que fabrica, de forma artesanal, produtos de higiene pessoal, cosméticos e maquiagens nos quais ela deposita suas ideias ambientais (e políticas) para um planeta melhor e clientes mais conscientes sobre sustentabilidade e saúde pessoal. Além dos produtos, Carol dá aulas e cursos – atividades que ela diz adorar fazer.

Na entrevista a seguir, dada ao Núcleo de Comunicação Social, a doutora pelo CBPF fala um pouco sobre sua opção pela física; a mudança de carreira; como sua formação científica a tem ajudado a empreender; e planos para a pós-pandemia.

 

Carol, doutora em física pelo CBPF

(Crédito: Arquivo Pessoal)

 

Como você chegou à física? E em que área fez seu mestrado e doutorado?

Eu era – e sou até hoje – uma pessoa bem curiosa. Quase tudo me interessa, e gosto de discutir ideias. Então, qualquer desafio intelectual sempre faz minha cabeça. Fiz escola técnica e aprendi a programar logo cedo. Acho que escolhi a carreira um pouco motivada por programar bem nessa época.

Entrei na física, mas parei no fim da faculdade. Fui fazer desenho industrial. Tive uma filha e, só depois disso tudo, consegui voltar e terminar as poucas matérias que me faltavam. Como reflexo de uma autoimagem muito comum nas mulheres – principalmente, na idade com que eu estava à época –, eu me achava incapaz de terminar o curso e trabalhar como física. Voltei porque amigos me convenceram a terminar.

Passei no mestrado no CBPF. Mesmo achando que não era suficientemente boa e sem esperança de terminar, consegui transformar meu projeto de mestrado em um de doutorado – na área de magnetismo. O tema da minha tese foi crescimento fractais e hidrodinâmica.

 

De que modo seu pós-doc na Europa a influenciou a mudar da física para a cosmética?

Sou vegetariana desde os oito anos de idade, por escolha própria. Então, bem antes de ser física, sempre fui uma pessoa ligada à sustentabilidade, ao amor à natureza e, principalmente, alguém que acha que tudo tem um fundo político. Desde pequena, sou o que chamam ‘natureba e militante’.  

Essa minha conscientização aumentou quando fui fazer meus pós-doutorados na França, Alemanha e Holanda, países com muita preocupação ambiental. Acho que, nesse aspecto, aprendi muito na Europa. Mas, até aquele momento, tratava o que eu faço agora como hobby.

 

Como foi essa transição? E como a formação em física a ajudou?

Tenho muito orgulho da minha formação em física em vários aspectos. Primeiramente, porque ter uma base cientifica sólida ajuda muito a fazer as perguntas certas e a pesquisar. A física me deu um olhar para o mundo que acho muito interessante. Além disso, ela me possibilitou viajar.

Na Europa, fiquei anos tendo um laboratório em casa e fazendo coisas só para mim. Nessa época, me fiz um desafio: não comprar mais cosméticos e maquiagens, e só usar os que eu fazia. Consegui cumprir a promessa.

Foi assim por anos, até resolver voltar para o Brasil, porque minha filha não queria mais morar na Holanda. Nessa época, fui convidada para abrir uma empresa de cosmética com investidores. Aceitei a proposta, pedi demissão, larguei tudo lá e vim para o Brasil.

Infelizmente, a iniciativa foi um fracasso retumbante, porque minhas ideias sobre o assunto eram incompatíveis com o que os investidores queriam. A partir daí, decidi seguir sozinha, fazendo as coisas do jeito que acredito.

 

Como você definiu seu nicho de atuação na cosmética, já que essa área é bem ampla e nela atuam multinacionais?

Acho que minha atuação é principalmente política nessa área. E, talvez, seja o que faço melhor. Gosto de fazer produtos, pensar neles, refletir sobre o mercado e tal. Mas adoro, mais que tudo, dar aulas, ensinar as pessoas a se cuidarem de uma forma mais, digamos, criativa, sustentável e cuidadosa com elas mesmas. É preciso repensar um monte de coisas para chegar a isso. Ser cientista me ajudou a questionar e tentar entender esse universo.

 

Como é empreender no Brasil? Qual foi a maior dificuldade que você encontrou ou tem encontrado como empreendedora?

Tenho a sorte de ter uma família incrível, a qual me ajudou em todas as etapas do processo de mudança – não sei se conseguiria fazer isso nem uma semana sem minha mãe [risos]. Falo isso porque acho que empreender, no Brasil, é meio isso, ou seja, vontade de chamar sua mãe para bater nas pessoas [risos].

Em meu meio, a falta de incentivo e regulamentação reina, porque estamos lidando com uma das indústrias mais poderosas, ricas e, sim, canalhas do planeta. Tudo que já é normalmente difícil fica ainda mais difícil contra um poder desses.

 

Carol Cronemberger, preparando um dos produtos em sua empresa, a Cosmoética

(Crédito: Arquivo pessoal)

 

Que conselhos você daria a um(a) jovem pesquisador(a) que queria empreender?

Não me considero uma boa empresária – principalmente, uma para dar conselhos –, porque acho que errei mais do que acertei. Mas se tem uma coisa boa que sempre fiz foi conhecer muito bem o mercado, observar as pessoas e me manter informada sobre o mundo. Acho que, com isso, consigo sempre ter alguma visão mais ampla da minha área.

 

Quais seus planos profissionais para a vida pós-pandemia?

Sobreviver já vai ser bem bom [risos]. A pandemia me ajudou muito a organizar minhas vendas e me motivou a abrir dois cursos. Portanto, nesse sentido, foi muito proveitosa para meu trabalho, pois me ajudou a organizá-lo e reestruturá-lo. Acho que me entendi melhor também o que quero fazer mais. Então, acho que saio dela melhor profissionalmente do que entrei.

Estou timidamente voltando a atuar na Europa, com alguns produtos. Talvez, seja um plano para quando a vida, como um todo, se reorganizar.

 

Mais informações:

Cosmoética: https://www.carolcronemberger.com/

 

 

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