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Cortes são tema de carta das UPs ao MCTIC

Publicado: Sexta, 12 de Junho de 2020, 13h54 | Última atualização em Sexta, 12 de Junho de 2020, 21h05 | Acessos: 107

 Diretores de 16 Unidades de Pesquisa (UPs) assinaram carta para o astronauta Marcos César Pontes, titular do agora Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O documento expressa a profunda preocupação desses institutos com cortes orçamentários anunciados para as UPs a partir do ano que vem.

A seguir, a íntegra da carta.

 

Brasília, 10 de junho de 2020

Exmo. Senhor

MARCOS CÉSAR PONTES

Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações - MCTIC

Esplanada dos Ministérios, Bloco E

CEP 70067-900 - Brasília - DF

 

Senhor Ministro:

Nós, diretores das Unidades de Pesquisas do MCTIC, trazemos ao seu conhecimento a nossa insegurança e preocupação diante da potencial diminuição dos orçamentos propostos para as unidades para o próximo ano. Entendemos que o Ministério tem realizado um grande esforço para prover os recursos para nossa sobrevivência; no entanto, estes cortes causam grandes aflições sobre a manutenção e a própria existência de alguns dos nossos institutos.

Há, hoje, um consenso no mundo da política, no mundo empresarial e na sociedade como um todo, de que o desenvolvimento da ciência é o principal patrimônio de qualquer país. Não só apenas pelos valores culturais que ele traz para a humanidade, mas também pela percepção de que é o instrumento fundamental para a segurança sanitária, segurança alimentar, para a defesa e o principal insumo para se criar riqueza e bem-estar para uma sociedade.

Ultimamente, em consequência da pandemia da covid-19, a palavra ciência é uma das mais citadas em noticiários, declarações e em quase tudo que se refere à presente situação. No entanto, nem passamos ainda pela crise e já voltamos a negligenciar os investimentos em ciência, sob a alegação de que “não há dinheiro”. Mas reafirmamos que uma das razões pelas quais não há – e não haverá dinheiro – é que os investimentos em ciência foram historicamente – e seguem sendo – inadequados, tomando como referência o tamanho da economia brasileira e o papel protagonista que o Brasil deveria assumir, mais vigorosamente, no cenário científico, tecnológico e da inovação.

Um país com as dimensões do Brasil, com seus desafios e suas oportunidades, para ter uma economia competitiva no cenário internacional – e, mais ainda, com o destino de país continental e, consequentemente, com as responsabilidades intrínsecas dessa estatura – tem que ter uma infraestrutura científica robusta e moderna, lastreada em institutos de pesquisas (em especial, os do MCTIC), bem como em universidades, complementada pela pesquisa empresarial, formando um consistente sistema integrado de CT&I.

A pesquisa universitária tem sofrido com a fragilização das agências de fomento, bem como a falta de recursos e bolsas para a formação científica. Mas o outro componente do sistema – o conjunto de institutos de pesquisas, que tem papel estratégico nas políticas públicas – tem se tornado ainda mais frágil.

Temos reiterado, repetidamente, que vivemos no Brasil, onde, por razões históricas, há um contraste marcante com a prática científica de grande número de países. Nos países que têm situação econômica próspera, há um balanço entre o número de cientistas atuando em universidades e institutos de pesquisas. Esse equilíbrio é chave para sua competência no desenvolvimento em C&T e, principalmente, em inovações. No Brasil, porém, essa relação é bastante desequilibrada – sem que sequer se possa argumentar que haja muitos cientistas trabalhando nas universidades.

O trabalho dos cientistas em universidades e institutos de pesquisas é complementar, mas com importantes diferenças. Enquanto, na universidade, cientistas têm a liberdade acadêmica como norteador de suas agendas de pesquisas, nos institutos, nosso trabalho está alinhado às missões especificas de cada instituição. Por sua vez, essas missões, alinhadas às estratégias e políticas públicas do Estado, têm como foco resolver os grandes desafios científicos e tecnológicos, com que se confronta a nação. Por exemplo, neste momento, cabe à Fiocruz, instituto associado ao Ministério da Saúde, coordenar todo o trabalho de pesquisa associado à pandemia no Brasil.

Os institutos de pesquisas têm o papel de gerar novas tecnologias com o objetivo de atender aos desafios científicos impostos ao país e deveriam ser centros de treinamento avançado para quadros técnicos que, depois de um tempo em ambiente científico, levam essa cultura para o meio empresarial. É assim que funciona em grande número de países.

Poderíamos listar aqui as contribuições importantes que o grupo de instituições de pesquisas associadas ao MCTIC trouxe ao país; porém, lembramos que já vamos para décadas de orçamentos reduzidos e quadro de pessoal sendo degradado em seu número. Em grande parte dos nossos institutos, se aplicarmos índices de correções monetária sobre um orçamento – que já era escasso, há uma década – e comparamos com o atual, chegamos a parcos 30% daquele valor, isso sem contar com a proposta atual de redução de orçamento, que inviabilizará atividades fundamentais de suas missões e sua própria subsistência. Vivemos hoje o paradoxo de que a redução de nossos orçamentos acabará por custar mais ao país do que pequenos aumentos que apontem para a direção de uma correção no papel que é da responsabilidade dos nossos institutos. Reiteramos, novamente, que a grande questão para nossas instituições não é o que fazemos – o que já representa muito se comparado com países desenvolvidos e respectivas relações de orçamentos –, mas, sim – de muito maior valor –, o que poderíamos fazer, com recursos suficientes.

Ao persistirem os cortes, propostos para a PLOA 2021 nos institutos do MCTIC, o país não fará nenhuma economia significativa, mas, sim, colocará em maior nível de risco uma componente importante para melhorias em seu resultado econômico em curto e médio prazos.

Finalmente, cabe a nós diretores alertar o MCTIC de que o fortalecimento da infraestrutura e operacionalidade dos seus institutos de pesquisas é um desafio importante e permanente para qualquer governo interessado em promover novos níveis de economia e bem-estar da nação brasileira.

Aproveitamos a ocasião para expressar nosso apreço pelo esforço que o Sr. tem realizado ao longo de sua gestão no sentido apontado no nosso texto. Esperamos que esses argumentos possam contribuir para convencer a presidência da República e o Congresso Nacional sobre a urgência em rever os orçamentos previstos para 2021.

Com toda a nossa consideração, expressamos nossas cordiais saudações

 

Ronald Cintra Shellard

CBPF

Darcton Policarpo Damião

INPE

Osvaldo Luiz Leal de Moraes

CEMADEM

Mônica Tejo Cavalcanti  

INSA

Fernando Antonio Freitas Lins

CETEM

Fernando Cosme Rizzo Assunção

INT

Giovanna Machado

CETENE

Wagner José Corradi Barbosa

LNA

Jorge Vicente Lopes da Silva

CTI

Augusto César Gadelha Vieira

LNCC

Cecilia Leite Oliveira

IBICT

Anelise Pacheco  

MAST

Sérgio Lucena Mendes  

INMA

Ana Luisa Kerti Mangabeira Albernaz

MPEG

Antônia Maria Ramos Franco Pereira

INPA

João Carlos Costa dos Anjos  

ON

 

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