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Primavesi é a segunda cientista biografada

Publicado: Sexta, 15 de Maio de 2020, 17h08 | Última atualização em Sexta, 15 de Maio de 2020, 17h11 | Acessos: 206

O Núcleo de Comunicação Social publica o segundo de quatro ensaios do físico Alaor Chaves – professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e colunista do portal do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ) – sobre pesquisadoras da área de ciência agrícola e ecologia cujos trabalhos foram importantes para a prática sustentável da agricultura. A série continua com Ana Maria Primavesi. 

 

ANA MARIA PRIMAVESI (1920-2020)

Annemarie Conrad nasceu em 03 de outubro de 1920, na Áustria, em um castelo construído em 1600, herdado por sua mãe, Clara. Seu pai, Barão Sigmund Conrad, era um dos melhores criadores de gado da região. Annemarie, a primogênita de seis irmãos, desde menina, gostava de observar as atividades do pai, por quem tinha grande admiração.

Adotou o sobrenome Primavesi ao casar-se em 1946 com o engenheiro agrônomo austríaco Artur Primavesi, com quem se mudou para o Brasil em 1948, e o nome Ana Maria ao naturalizar-se brasileira.

Aqui, o casal realizou toda a sua carreira, voltada principalmente para a agroecologia. Ambos se destacaram, mas Ana Maria tornou-se uma das grandes referências mundiais em agroecologia e, seguramente, a principal da América Latina. Morreu dia 5 de janeiro de 2020 na cidade de São Paulo.

Em 1939, Annemarie ingressou na Universidade Rural de Viena (Boku), mas a Segunda Grande Guerra iniciou-se naquele ano, e Annemarie não foi poupada da desgraça que caiu sobre quase todos. O Reich, que em 1938 anexara a Áustria, desdenhava os acadêmicos e fazia o possível para que os iniciantes desistissem dos estudos. Eram obrigados a frequentes ‘estágios’, nos quais trabalhavam exaustivamente e alimentavam-se nos limites da sobrevivência. Annemarie fez três desses estágios, com duração total de 21 meses.

Terminada a guerra, na qual perdeu dois irmãos, ela e pai foram por um ano confinados ‘cautelarmente’ pelos ingleses em um campo de concentração.

Artur tinha sido ainda mais rico do que a esposa. Recebeu educação esmerada e era um fino diplomata cheio de amigos importantes. Isso facilitou sua vida ao chegarem ao Brasil em 1948. Obteve um cargo de consultor da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. Nunca atuou como um consultor convencional de escritório: trabalhou ativamente em projetos rurais e, para isso, residiu em diferentes cidades do interior de São Paulo.

Artur sustentava a família, e Ana Maria cuidava das três crianças, mas ele a consultava sobre tudo em seu trabalho. Em 1961, foram contratados como professores pela Universidade de Santa Maria (RS). Ana Primavesi (seu nome científico) dava aulas sobre produtividade dos solos, fazia pesquisa e dirigia o laboratório de biologia e análise de solos. Artur Primavesi fundou e dirigiu o Instituto de Solos e Culturas, que rapidamente tornou-se conhecido mundialmente.

O casal criou um curso de pós-graduação em agronomia e começou a publicar trabalhos de impacto, com o que se credenciou a trazer à hoje Universidade Federal de Santa Maria pesquisadores brasileiros e estrangeiros de renome em agronomia.

 

Estudo do solo

Ana Primavesi foi a primeira agrônoma a tratar e investigar cientificamente o solo como um organismo vivo, cuja saúde e fertilidade depende de uma interação complexa com as plantas, os micro-organismos, o clima, o ar e a água. Enfatizou as diferenças essenciais entre a agricultura nos locais de clima frio ou temperado e nos de clima tropical.

Os países que primeiro se desenvolveram têm climas frios ou temperados, desenvolveram a aração profunda do solo para, na primavera, acelerar seu aquecimento, pois, em seus climas, a janela de crescimento das lavouras é curta.

Os países tropicais (entre eles, o Brasil) tentaram copiar suas técnicas de cultivo, com resultados desastrosos. Nossos solos são muito profundos, mais quentes, mais pobres em nutrientes minerais, mais porosos e mais ácidos. Não devem ser arados, exceto no início do cultivo de terras virgens, e, nesses casos, o revolvimento do solo deve ser superficial. O solo deve ser mantido rico em matéria orgânica com alta relação carbono/nitrogênio. É essencial o rodízio de cultivares, com a inclusão de plantas leguminosas, que realizam a fixação biológica de nitrogênio (FBN) para seu desenvolvimento e liberam mais nitrogênio para a plantação subsequente.

A planta inicial deve ser uma leguminosa especialmente poderosa em FBN, como mucuna ou feijão-de-porco. Essa planta pioneira, com os grãos, deve ser incorporada superficialmente ao solo. Este nunca mais deve ficar exposto ao sol e impacto direto da chuva: há de haver cobertura, seja de gramínea, seja de palha da última colheita. Essa cobertura evita a erosão, conserva a umidade do solo, estabiliza sua temperatura e mantém sua vida microbiana.

 

Vida dedicada

Desses princípios, nasceu o plantio direto, no qual as sementes e os adubos químicos são colocados no solo sem seu revolvimento: uma fenda rasa, com largura de uns 10 cm, desloca a palha (restega) que cobre o solo para o recebimento das sementes e dos adubos. Omitiremos a descrição da complexidade da prática, que requer plantadeiras especiais, entre outras coisas. O plantio direto – no qual o Brasil é líder mundial – deve muito ao trabalho de Ana Primavesi. Com ele, a produtividade do solo aumenta a cada ano de cultivo.

A fertilidade do solo depende fortemente de sua capacidade de troca de cátions (CTC). A superfície das partículas do solo, que incluem argila e aglomerados orgânicos, contém muitas cargas negativas (ânions). Essas cargas atraem cargas positivas (cátions). Muitos destes cátions, como K+, Mg2+, Ca2+ etc., são nutrientes das plantas. Uns podem ser trocados por outros. Por exemplo, um ou dois H+ podem ser trocados por cátions nutrientes.

A CTC é influenciada pelo pH e pela microbiologia do solo, e a microbiologia também influencia o pH. O controle desses fatores é um dos grandes segredos da agricultura produtiva e sustentável. Ana Primavesi não foi a descobridora desses princípios. Mas ela destacou-se por uma vida dedicada ao estudo teórico e prático desses princípios e ainda de outros.

Um solo saudável, rico em micróbios (principalmente, bactérias), aglomera-se, formando grumos facilmente visíveis e perceptíveis pelo tato. Sob a pressão de nossos dedos, os grumos não se pulverizam; apenas se rompem formando grumos menores. Os grumos mantêm o solo permeável à água e ao ar. Com isso, eles aumentam muito a infiltração da água das chuvas – reduzindo as enxurradas, as enchentes e a erosão –, aumentam a vida microbiana e promovem o aprofundamento das raízes.

 

A pesquisadora Ana Maria Primavesi

(Crédito: Embrapa)

 

Prática e resultados

Em 1978, Ana Primavesi perde o marido. Decide abandonar a carreira acadêmica e pôr em prática suas ideias e seus resultados científicos. Compra uma fazenda em Itaí (SP). Escolhe uma área degradada, ponteada por chaminés de cupins, sem nascentes, nem florestas. Por 32 anos viveu na fazenda, continuando suas pesquisas ao seu modo.

Em 1979, publica seu principal livro, Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais (Editora Nobel), no qual vinha trabalhando por vários anos. Não parou de publicar artigos, ir a congressos científicos e dar palestras. Recuperou toda a área da fazenda. O solo ganhou vida e, com isso, fertilidade natural. As matas e as nascentes ressurgiram. As plantações ficaram muito produtivas e pouco infestadas de pragas.

Em 1989, ajudou a criar a Associação de Agricultura Orgânica, da qual foi a primeira diretora técnica. Entretanto, sempre manteve divergências essenciais com as práticas vigentes da agricultura orgânica, no Brasil e no resto do mundo, que adotaram apenas parte dos princípios da agroecologia – principalmente, no manejo ecológico do solo. Segundo Primavesi, esses princípios são holísticos e só funcionam se adotados integralmente.

Em palestra proferida em 2003, ela diz:

“Atualmente a agricultura orgânica é orientada pelas Normas da IFOAM com o objetivo de proteger o consumidor sem pretender orientar o agricultor. Ela continua com o enfoque temático-analítico da agricultura convencional, continua combatendo sintomas, embora com meios menos tóxicos, não se preocupa muito com o solo, tomando sua melhora como dada pela aplicação de composto que acredita ser NPK em forma orgânica e não se preocupa pela profundidade de sua aplicação, [...]” (Biológico, São Paulo, v.65, n.1/2, p.69-73, 2003).

 

Apesar dessas divergências, em 2012, ela recebe o One World Award’, principal prêmio da IFOAM (International Federation of Organic Agriculture Movements).

 

Plantio direto

O princípio fundamental das ideias de Primavesi é o do solo vivo, povoado por alta diversidade de fungos, bactérias, minhocas e insetos. Corrigindo o pensamento os agricultores orgânicos convencionais, Primavesi ensina que o principal objetivo dos compostos orgânicos não é prover nutrientes para as plantas, mas, sim, alimentar fungos, bactérias e insetos que vivem no solo.

As bactérias e os fungos irão promover a FBN e aumentar a capacidade de troca de cátions, com o que as plantas se suprem de fósforo, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes, mesmo que suas concentrações no solo sejam relativamente baixas. A matéria orgânica nunca deve ser enterrada profundamente, pois sua decomposição anaeróbica produz gases tóxicos para as raízes, como metano (NH4), ácido sulfídrico (H2S) e outros – considere-se ainda o fato de que o metano é um gás estufa 30 vezes mais poderoso do que o gás carbônico.

Para manter o solo vivo, é essencial evitar sua compactação, promovida por seu revolvimento frequente com máquinas e pisoteio excessivo da terra molhada pelo gado. Além da perda de fertilidade oriunda da compactação, há de se considerar que o nitrogênio em solos compactados produz óxido nitroso (N2O), que, além de ser um gás estufa 250 vezes mais poderoso do que o gás carbônico, é o principal destruidor da camada de ozônio.

Em clara divergência dos agricultores orgânicos, Ana Primavesi nunca se opôs ao uso da adubação com NPK mineral. Grande parte de sua pesquisa aborda o melhor aproveitamento desses macronutrientes pelas plantas e a consequente redução da adubação mineral. Sempre apontou que, em solos sem vida, a maior parte da adubação é desperdiçada. A vida toda repetiu seu famoso bordão: “A agricultura convencional é a arte de explorar solos mortos”.

O plantio direto requer o uso de herbicidas para matar a cobertura verde da terra, depois roçada bem baixo com roçadeiras leves e muito eficientes.

 Ao defender o uso de herbicidas, Ana Primavesi colide frontalmente com os agricultores orgânicos convencionais, mas, na tecnologia, como em tudo na vida, há que se pesarem os prós e os contras. Ninguém gosta dos herbicidas; porém, seu uso evita a capina mecânica e reduz o uso de inseticidas, muito mais danosos ao ser humano, pois estes estão ligados ao metabolismo dos animais, e aqueles, ao dos vegetais.

Em contato direto com a pele humana, os herbicidas causam severas irritações, e, por isso, seu uso deve ser feito com as devidas precauções. Sua utilização deve também ser precisa, exatamente sobre a área desejada e feita na ausência de ventos. Para o futuro, o objetivo precisa ser o desenvolvimento de herbicidas menos tóxicos.

 

Publicações

Ana Primavesi assinou 94 artigos científicos e publicou os livros: Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais (1984); Manejo ecológico de pragas e doenças: técnicas alternativas para a produção agropecuária e defesa do meio ambiente (1988); Agricultura sustentável: manual do produtor rural (1992); Agroecologia: ecosfera, tecnosfera e agricultura (1997), todos pela editora Nobel.

O primeiro deles é referência obrigatória para agrônomos e continua sendo muito utilizado em cursos e citado em artigos. É escrito num estilo ‘direto ao ponto’, ricamente ilustrado por figuras e documentado por várias centenas de referências. “Sempre foi meu livro predileto sobre agricultura, e nele aprendi o pouco que sei sobre melhoramento do solo”, relata este signatário.

Em 2016, Virgínia Knabben publicou a biografia Ana Maria Primavesi – histórias de vida e agroecologia, pela editora Expressão Popular. No aniversário de 99 anos da pesquisadora, 3 de outubro de 2019, Knabben criou uma página na internet inteiramente dedicada a ela: www.anamariaprimavesi.com.br

O dia 3 de outubro é o Dia Nacional da Agroecologia.

 

Alaor Chaves

Professor emérito

Universidade Federal de Minas Gerais

 

Mais informações:

Embrapa: https://www.embrapa.br/

Embrapa Agrobiologia: https://www.embrapa.br/agrobiologia

Ana Maria Primavesi: https://anamariaprimavesi.com.br/

 

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