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Tiomno, 100: CBPF traz ensaio e entrevista

  • Publicado: Quinta, 16 de Abril de 2020, 12h58
  • Última atualização em Quinta, 16 de Abril de 2020, 16h06
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A convite do Núcleo de Comunicação Social do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), o historiador da ciência Antonio Augusto Passos Videira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), escreveu, para a seção ‘Memória por imagem’, ensaio sobre o centenário de nascimento de Jayme Tiomno (1920-2011), um dos fundadores do CBPF e pesquisador emérito pela instituição.

Complementa este material, entrevista exclusiva com o físico teórico Nicim Zagury, professor emérito do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IF-UFRJ), que fala, entre outras coisas, de como conheceu Tiomno e do legado de seu ex-professor de graduação, do qual se tornou assistente e colaborador nas décadas seguintes.

 

Jayme Tiomno: “Genialidade é trabalho”

Em 1980, por ocasião das comemorações pelo 60º aniversário de Jayme Tiomno, seu ex-aluno e colaborador Antonio Luciano Leite Videira (1935-2018), em discurso escrito para homenageá-lo, recordou para a plateia que seu antigo professor nunca, ao longo de sua longa e rica carreira, abriu mão da seguinte máxima: “Ciência se aprende fazendo ciência!” -- ou seja, genialidade brota do trabalho. A alusão a essa afirmação sintetizava a característica mais marcante de Tiomno: um interesse enorme pela pesquisa da natureza.

O interesse de Tiomno pela pesquisa remonta aos anos de adolescência, quando estudante de ginásio. À época, sua predileção era pelas ciências biológicas, o que o levou – dividido entre ela e a física, que descobrira mais tarde no científico – a optar pela medicina, que acabou por ser sua opção no vestibular realizado na segunda metade da década de 1930. A decisão pela medicina não duraria muito tempo. Em pouco tempo, a física seria sua única paixão científica.

Nascido em 16 de abril de 1920, no Rio de Janeiro, mesma cidade onde atuou grande parte de sua vida, Tiomno formou-se em física pela antiga Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), então Universidade do Brasil (hoje, UFRJ), na mesma turma em que estavam Elisa Frota-Pessôa (1921-2018) e José Leite Lopes (1918-2006). Elisa seria sua mulher por mais de 50 anos.

 

Tese nos EUA

Na década de 1940, Tiomno e Elisa foram assistentes de Joaquim da Costa Ribeiro (1906-1960) e já procuravam, então, mudar a estrutura da FNFi, para que a pesquisa fosse ali realidade. Tiomno chegou a publicar artigos na revista da faculdade, mantida pelo corpo discente. Na segunda metade da década de 1940, transfere-se para a Universidade de São Paulo (USP), onde se tornou assistente do ítalo-russo Gleb Wataghin (1899-1986), colaborando com os teóricos Mário Schenberg (1916-1990) e Leite Lopes.

 

Tiomno, ladeado por seus assistentes, Videira (esq.) e Zagury, no anúncio de nova partícula

(Crédito: NIB/CBPF)

 

No início de 1948, Tiomno, que pretendia dirigir-se a Córdoba (Argentina) para trabalhar com Guido Beck (1903-1988), recebeu uma bolsa de estudos do governo norte-americano para se doutorar pela Universidade de Princeton. Sua primeira opção para orientá-lo foi John Wheeler (1911-2008), com quem escreveu dois trabalhos que fizeram época na física de partículas elementares: ‘Charge exchange reaction of the m-meson with the nucleus’, Reviews of Modern Physics. v. 21, p. 153-165 (1949) e ‘Energy spectrum from m-meson decay’, Reviews of Modern Physics. v. 21, p. 144-152 (1949).

O físico norte-americano acabou substituído por Eugene Wigner (1902-1998) – Nobel de Física de 1963 –, que o orientaria em uma tese sobre neutrinos.

 

Regresso ao país

De regresso ao Brasil, logo após o término do doutorado, Tiomno somente sairia do país para estágios de pesquisa, participações em congressos – participou assiduamente das famosos Conferências de Rochester (EUA) – ou quando não mais pôde mais continuar aqui. Em abril de 1969, Tiomno, juntamente com outros cinco físicos (entre os quais, Elisa Frota-Pessôa), foi cassado pelo AI-5.

Tiomno trabalhou sempre no Rio de Janeiro, com a exceção de: i) dois períodos na USP (1947-1951), com o interstício do seu doutorado nos EUA; ii) na UNB (1964-1965), para onde se dirigiu, atraído pelo sonho de criar uma universidade moderna; iii) uma segunda vez, em Princeton, para onde foi após a cassação.

No Rio de Janeiro, suas atividades se desenvolveram na FNFi, no CBPF – do qual é um dos fundadores – e na PUC-Rio, que o abrigou após seu retorno da sua segunda estada em Princeton, onde ficou até 1980, quando reingressou no CBPF.

Entre as muitas distinções que recebeu, merece destaque o Prêmio Moinho Santista, concedido em 1957 por suas contribuições à física de partículas elementares. À época, Tiomno procurava encontrar um grupo de simetria capaz de organizar o então ‘desconjuntado’ universo das partículas.

 

Nova partícula

Em 1960, Tiomno, auxiliado por Videira e Nicim Zagury (veja entrevista abaixo), propôs a existência de uma nova ressonância bariônica, o méson K’. Sua descoberta foi amplamente divulgada pelos principais jornais e revistas cariocas. Para além de dar a conhecer um resultado certamente importante, outro objetivo dessa propaganda foi tentar conseguir recursos para reforçar os combalidos cofres do CBPF. A divulgação acabou por não angariar as necessárias verbas – tal como hoje, a ciência nacional era pouco apoiada pelos governos.

 

Fac-símile do cabeçalho do artigo sobre o méson K’ na PRL (1960)

(Crédito: PRL)

 

Além da área de partículas elementares, Tiomno também produziu inúmeros trabalhos em relatividade geral, cosmologia e buracos negros. Seu interesse pelo ensino levou-o a reformular o modo pelo qual a física básica era introduzida nos primeiros anos na FNFi, além de traduzir um livro texto com a ajuda de Leite Lopes. Em 1963, foi um dos organizadores de um encontro internacional voltado para a discussão dos problemas do ensino de física.

Tiomno sempre lutou de forma incansável para que a ciência fosse pujante, fecunda e disseminada no Brasil. Seu empenho foi tamanho que, nos últimos anos de vida, acabou por sofrer, por períodos, de depressão, que o afastava da física.

Em um país que ainda valoriza pouco a ciência e o conhecimento – onde seus mais importantes dignitários se comportam como se a verdade fosse algo menor –, a pessoa e a obra de Jayme Tiomno (1920-2011) devem ser lembradas e comemoradas, nem que seja para nos fazer crer que somos capazes de realizar coisas bonitas, relevantes e verdadeiras, em toda e qualquer área. Que seu exemplo nos dê forças para superar os tristes dias que vivemos! 

 

Antonio Augusto Passos Videira

Departamento de Filosofia,

Universidade do Estado do Rio de Janeiro e

Pesquisador colaborador do CBPF

 

ENTREVISTA

Nicim Zagury

 

Nicim Zagury é professor emérito do IF-UFRJ. Fez seu mestrado e doutorado na Universidade da Califórnia, no início da década de 1960. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e comendador da Ordem do Mérito Científico. Trabalhou nas áreas de partículas elementares, magnetismo e física estatística. Atualmente, dedica-se à pesquisa em óptica quântica e informação quântica.

 

O físico Nicim Zagury

(Crédito:IF-UFRJ)

 

 

Quando e como o senhor conheceu Jayme Tiomno? Como aconteceu de ir trabalhar com ele?

Conheci o professor Tiomno em 1956, quando fui à sua residência, juntamente com Jorge André Swieca [1936-1980] e Antonio Luciano Leite Videira [1935-2018], convidado pela professora Elisa Frota-Pessôa [1921-2018], esposa dele, a qual nos ministrava as disciplinas de física geral I e II.

Em 1957, Tiomno foi meu professor de eletromagnetismo no curso de física da antiga Faculdade Nacional de Filosofia, da [então] Universidade do Brasil [hoje, UFRJ]. Esse curso era ministrado no CBPF, que, à época, tinha mandato universitário. Terminei meu curso de graduação em dezembro de 1958 e fui contratado, juntamente com Videira, como professor assistente no CBPF.

Em meados de 1960, Tiomno sugeriu-nos que os dados experimentais da reação π- + p —> lambda + K0 [méson pi negativo + próton —> lambda + méson K neutro] poderiam ser explicados pela troca de um possível méson K’, não observado à época. A análise foi feita enquanto Tiomno estava no exterior. Ao retornar de lá, ele ficou entusiasmado com os resultados da determinação aproximada da massa do méson K’ e levou ao conhecimento da comunidade científica na Conferência de Rochester [EUA] em 1960.

Tiomno, apesar de ter tido a ideia inicial, ousada à época, sempre deu muito crédito pela nossa participação nesse trabalho. 

 

Como era trabalhar com ele? Como era ele como orientador e colaborador?

O trabalho com Tiomno sempre foi muito instrutivo e agradável. Ele orientou-nos a fazer doutoramento no exterior, já que, à época, não havia cursos de pós-graduação funcionando no Brasil.

 

O senhor conviveu com Tiomno em dois períodos diferentes. No CBPF, entre fins da década de 1950 e início da seguinte, e na PUC-Rio, entre 1973 e 1980. Houve diferença na maneira e no entusiasmo com que ele dedicava à física?

Tiomno sempre foi um entusiasta da física. Sempre aparecia com novas ideias e se dedicava com afinco para demonstrar sua validade. Não acho que houve mudança em seu entusiasmo pela pesquisa.

 

Em sua opinião, qual foi o maior legado científico de Tiomno?

Vou me limitar aos trabalhos sobre partículas experimentais. Eu citaria suas contribuições extremamente importantes na proposta da universalidade das chamadas 'interações fracas'.

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