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Alfredo Marques é emérito do CBPF

  • Publicado: Segunda, 17 de Agosto de 2020, 21h36
  • Última atualização em Quinta, 27 de Agosto de 2020, 11h30
  • Acessos: 592

Acaba de ser concedido ao físico experimental Alfredo Marques de Oliveira o título honorífico de pesquisador emérito do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ).

A proposição foi discutida e aprovada, por unanimidade, pelo Conselho Técnico-Científico (CTC) do CBPF, em proposta recomendada ainda este ano pelo Conselho Científico, órgão consultivo do CBPF. A ata do CTC foi aprovada em reunião hoje (17 de agosto).

Quando terminar o período da pandemia, será organizada reunião para celebrar a emerência.

 

O novo emérito

A vida e carreira científica de Alfredo Marques – como é conhecido por colegas e amigos – confunde-se com a história do CBPF, onde o mais novo emérito chegou ainda no início da década de 1950, pouco anos depois da fundação da instituição, em janeiro de 1949.

Marques – que se tornou órfão de pai muito cedo – foi trazido para o CBPF, de seu emprego no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, pelas mãos do físico teórico Jayme Tiomno (1920-2011), que gostava do desempenho dele no curso de eletromagnetismo. Começou pelo setor de publicações. Depois, passou a trabalhar com a técnica de emulsões nucleares, placas fotográficas especiais que capturam a trajetória de partículas subatômicas dotadas de carga elétrica.

Nesse período, interagiu com uma das pioneiras da física no Brasil, Neusa Amato (1926-2015). “É com uma mistura de alegria e gratidão que reconheço em Neusa Amato a condutora do meu aprendizado. Vale mencionar que seus ensinamentos vieram sempre de maneira natural, frutos de conversações amistosas que me propiciavam a sensação da descoberta autônoma, quase sem notar sua presença indutora. Uma hábil, genuína professora.”, escreveu Marques na comemoração dos 80 anos de sua mentora, com quem assinou seu primeiro artigo científico em 1957, para o periódico Il Nuovo Cimento.

Esteve também envolvido na chamada Missão Unesco, em que pesquisadores de vários países, liderados por César Lattes (1924-2005), vieram ao Brasil para levar, ao monte Chacaltaya (Bolívia) – onde havia um departamento do CBPF –, uma câmara de nuvens doada por Marcel Schein (1902-1960), da Universidade de Chicago (EUA), instrumento que captura trajetórias de partículas subatômicas – no caso, raios cósmicos, núcleos atômicos que bombardeiam a atmosfera terrestre a todo instante.

Entre físicos e engenheiros, participaram da missão o italiano Giuseppe Occhialini (1907-1993) e brasileiro Ugo Camerini (1925-2014), ambos colegas de Lattes na Universidade de Bristol (Reino Unido), onde este último teve papel preponderante na detecção em 1947 de uma nova partícula, o méson pi, usando a técnica das emulsões nucleares. O méson pí (ou píon) é responsável pela coesão do núcleo atômico.

Nascido em 1930, no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro (RJ), depois de estudos no Colégio Pedro II, Marques ingressou na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil (atual, Universidade Federal do Rio de Janeiro), quando fez vestibular ainda em 1949 – tendo Neusa Amato na banca examinadora. Formou-se bacharel em física em 1954 – tirou a licenciatura no ano anterior. Mais tarde, no início da década de 1960, foi diretor do Departamento de Física da FNFi.

 

 

Figura 2. Da esq. para a dir., Oscar Troncoso, Alfredo Marques, Neusa Amato e Erasmo Ferreira,

na frente do Pavilhão Mário de Almeida, então sede do CBPF, em foto da década de 1950

(Crédito: Alfredo Marques/Acervo pessoal)

 

Período turbulento

Marques foi diretor científico do CBPF entre 1970 e 1976, em um dos períodos mais turbulentos da história da instituição (e do país), quando salários atrasaram por cerca de um ano, e a própria sobrevivência da instituição ficou ameaçada. A situação contrastava com o cenário em que o CBPF havia sido fundado como resultado de uma campanha pública que reunia cientistas, militares, empresários, intelectuais e artistas, tendo ciência como projeto de nação.

Marques capitaneou a transferência do CBPF (então, sociedade civil) para o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), quando o CBPF tornou-se, então, órgão federal, o que permitiu a estabilização administrativa e financeira da instituição.

Mesmo que ainda jovem, teve protagonismo importante para a retomada das atividades normais do CBPF depois do chamado ‘Caso Difini’, em que o tesoureiro do CBPF – Álvaro Difini, então professor da atual Universidade Federal do Rio Grande do Sul – gastou alta soma de dinheiro do CBPF (cerca de 2,5 milhões de cruzeiros) – verbas voltadas para a construção de um grande acelerador de partículas – em corridas de cavalo.

O caso Difini tomou proporções para bem além do CBPF e ganhou contornos políticos amplos, explorados pela imprensa da época para atacar o governo Vargas. Por causa dessa crise, Lattes teve colapso físico e mental importante e passou os cerca de três anos seguintes nos EUA, fazendo pesquisas e se submetendo a tratamentos.

Marques passou cerca de três anos em Manchester (Inglaterra), com bolsa, especializando-se em física nuclear, mas teve que voltar ao Brasil por problemas de saúde na família. Mais tarde, trabalharia com Lattes na chamada Colaboração Brasil Japão, que empregava, também no monte Chacaltaya, grande áreas de emulsões nucleares (as chamadas câmaras de emulsão) recobertas com filmes de raios X e chumbo, para estudar radiação cósmica. Iniciada no começo da década de 1960 – e com participação posterior do CBPF, por meio da pesquisadora aposentada Anna Endler e, mais tarde, Neusa Amato –, essa colaboração se estenderia pelos próximos 30 anos, com resultados que tiveram impacto internacional – como o fenômeno altamente energético batizado ‘bolas de fogo’.

 

Figura 2. Marques (à frente) e Lattes, amigos de longa data

(Crédito: CBPF e Jornal da Unicamp)

 

Vasto cabedal

Além de artigos científicos, Marques é autor e editor de vários livros. Entre eles, Cesar Lattes: 70 anos (organizador), publicado pelo CBPF em 1994; Alfredo Marques: revivências, organizado por Francisco Caruso, pesquisador titular do CBPF, publicado pela Editora Livraria da Física, em São Paulo (SP), em 2014; e César Lattes, a descoberta do méson e outras histórias, em organização conjunta com Caruso e Amós Troper – este último também emérito do CBPF e ex-diretor da instituição.

Marques esteve à frente da aquisição do primeiro computador de grande porte do CBPF – por vezes, denominado ‘IBM do Alfredo Marques’ –, instituição que é hoje a ‘espinha dorsal’ de toda a internet acadêmica do estado fluminense. Supervisionou dissertações e doutorados – entre estes últimos, o de Neusa Amato – e foi professor no exterior. Participou ativamente da vida política do Brasil desde a década de 1950.

Leitor voraz, escreveu sobre os mais diversos temas, graças a seu vasto cabedal de conhecimentos. Violonista exímio, com atuação em rádios, pensou em seguir a carreira de músico.

 

Mais informações:

Sobre César Lattes:

http://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/cs00413.2013_10_16_10_54_54.pdf

Livro autobiográfico:

https://www.livrariadafisica.com.br/detalhe_produto.aspx?id=143185&titulo=Alfredo+Marques:+Reviv%C3%AAncias

Sobre Neusa Amato:

http://cbpfindex.cbpf.br/publication_pdfs/cs00107.2007_12_06_14_33_48.pdf

Entrevista no YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=xPVOHnbrYkk

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