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Bohm tem biografia de pesquisador da UFBA

  • Publicado: Quinta, 21 de Maio de 2020, 13h27
  • Última atualização em Quarta, 03 de Junho de 2020, 12h49
  • Acessos: 876

O historiador da física Olival Freire Júnior, professor titular do Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA), lançou recentemente David Bohm ‒ a life dedicated to understanding the quantum world, biografia desse físico norte-americano, cuja carreira científica profícua mostra rico (e tumultuado) entrelaçamento com a política, em época em que havia, nos EUA, forte perseguição a militantes e simpatizantes de esquerda.

Conhecido por importantes contribuições à mecânica quântica – teoria que lida com o diminuto universo dos átomos e das partículas subatômicas –, Bohm (1917-1992) teve ligação estreita com o Brasil, onde trabalhou e em período no qual trocou cartas com Albert Einstein (1879-1955).

Freire Júnior é um dos expoentes de uma geração de historiadores da ciência brasileiros que começaram a publicar em periódicos e por editoras de prestígio no exterior. Até o momento, foram mais de 70 artigos, quatro livros, cinco coletâneas e mais de 40 capítulos de livros. Foi presidente tanto da Sociedade Brasileira de História da Ciência quanto da Comissão para a História da Física Moderna, da União Internacional de História e Filosofia da Ciência. A biografia de Bohm saiu pela Springer.

A seguir, a íntegra da entrevista dada ao Núcleo de Comunicação Social do CBPF.

 

Olival Freire Júnior, que lança biografia de Bohm

(Crédito: Léo Ramos Chaves/Pesquisa FAPESP)

 

O senhor fez sua tese de doutorado sobre David Bohm. Quais as diferenças básicas entre esta última ‒ finalizada há cerca de 30 anos ‒ e o livro que agora o senhor acaba de lançar, David Bohm ‒ a life dedicated to understanding the quantum world?

Minha tese de doutorado foi dedicada à recepção, entre os físicos, da interpretação causal da mecânica quântica que David Bohm havia sugerido e publicado no início de 1952. A tese analisava as origens dessa interpretação, formulada em 1951, e cobria a recepção, essencialmente desfavorável, dessa interpretação até o final da década de 1950.

A biografia agora publicada é uma obra mais vasta, com atenção à formação inicial de Bohm, tanto científica quanto em termos de ideias culturais mais gerais, ainda na adolescência e na formação pós-graduada. O livro chega até o legado intelectual por ele deixado, o que inclui as distintas interpretações do significado de sua obra.

O subtítulo – uma vida dedicada à compreensão do mundo quântico – expressa o sentido maior da obra de Bohm, uma vida dedicada a entender a mecânica quântica e ao que essa teoria estava sugerindo para o desenvolvimento da ciência.

 

Em cartas a Einstein enviadas do Brasil, no início da década de 1950, Bohm reclama das condições de trabalho na Universidade de São Paulo, do ambiente da cidade e até mesmo da comida ‒ esta lhe causava problemas estomacais. Até que ponto essas cartas refletem a estada de cerca de quatro anos de Bohm no Brasil e sua interação com nossa comunidade de físicos à época?

Discuto isso em detalhes na biografia. Essas cartas para Einstein são um reflexo apenas parcial. Certamente, elas descrevem as mazelas da vida cientifica e social no Brasil, mas isoladamente podem nos enganar.

Bohm teve um período muito produtivo em termos intelectuais aqui no Brasil, mas uma época também marcada por forte tensão. Vítima do macartismo, ele teve seu passaporte norte-americano apreendido pelo consulado dos EUA quando chegou a São Paulo, sob a promessa de ter o documento de volta quando retornasse aos EUA.

Bohm temia o retorno aos EUA e, sem passaporte, não podia viajar ao exterior. Ele também enfrentava outra fonte de tensão: a recepção desfavorável à sua reinterpretação da mecânica quântica.

Além dessas preocupações, as cartas refletem sua tentativa de convencer Einstein a interferir junto a autoridades de Israel para ele, Bohm, obtivesse uma posição naquele país e um salvo-conduto para viajar sem passaporte.

A recente publicação das cartas de Bohm para suas amigas norte-americanas, Melba Phillips, Miriam Yevick e Hanna Loewy, expressam melhor o quadro complexo que aqui esbocei. Essas cartas estão publicadas no livro David Bohm: causality and chance, letters to three women, editado por Chris Talbot e lançado em 2017 também pela Springer.

 

“Bohm temia o retorno aos EUA e, sem passaporte, não podia viajar ao exterior. Ele também enfrentava outra fonte de tensão: a recepção desfavorável à sua reinterpretação da mecânica quântica”

 

Como a interpretação de Bohm da mecânica quântica foi recebida por seus pares no início da década de 1950, quando foi publicada? Em especial, como Einstein, Bohr e De Broglie reagiram a ela?

A interpretação causal foi mal recebida pelos físicos. As críticas variavam de tentativa metafísica conservadora de restauração do determinismo clássico a interpretação que não levava a novas predições.

Einstein, Bohr e De Broglie tiveram reações diferenciadas. Bohr não se pronunciou, mas Rosenfeld, Heisenberg e Pauli falaram por ele. Einstein apoiou a iniciativa de Bohm de busca de uma interpretação alternativa à usual, mas não gostava da solução encontrada por ele.

Por fim, de Broglie – motivado pelo fato de a interpretação de Bohm ter sido uma retomada de ideias que ele havia defendido na década de 1920 e, posteriormente, abandonado – retornou à defesa de suas ideias iniciais, aliando-se a Bohm.

O capítulo 4 da biografia é inteiramente dedicado à análise dessa recepção.

 

Um marco na história da mecânica quântica é o chamado teorema de Bell, referência ao físico irlandês John Bell. De forma simples e sem tecnicalidades, esse teorema, de meados da década de 1960, pode ser visto como um teste para mostrar se a natureza (realidade) é local ou não local ‒ neste último caso, sugerindo que o mundo quântico, dos átomos e das partículas subatômicas, permite conexões mais velozes que a luz, “fantasmagóricas”, como Einstein as denominou. Testes experimentais desde então têm corroborado a não localidade. Qual foi a influência das ideias de Bohm para Bell? E como Bohm reagiu ao teorema?

Bell mesmo afirmou várias vezes que ele foi profundamente influenciado pelo trabalho de Bohm de 1952, quando este mostrou que uma interpretação alternativa à usual era possível.

De sua parte, Bohm – embora não tenha sido dos primeiros a reagir ao teorema de Bell, mérito este de Abner Shimony e John Clauser – compreendeu perfeitamente suas implicações e as conexões desse teorema com seu trabalho anterior – afinal, sua interpretação causal era tão não local quanto a interpretação usual, ainda que a primeira buscasse preservar o realismo.

Assim é que, no inicio de década de 1970, Bohm e Basil Hiley publicaram artigo sustentando que a não localidade era a impressão digital da mecânica quântica.

 

“Bell mesmo afirmou várias vezes que ele foi profundamente influenciado pelo trabalho de Bohm de 1952, quando este mostrou que uma interpretação alternativa à usual era possível”

 

Em outro livro de sua autoria, The quantum dissidents ‒ rebulding the foundations of quantum mechanics (1950-1990), o senhor mostra que fatores culturais extracientíficos (por exemplo, guerra do Vietnã, maio de 1968, Guerra Fria, filosofias orientais etc.) foram importantes para que uma nova geração de físicos (os tais dissidentes do título) resgatasse os fundamentos da mecânica quântica ‒ tema que era à época tabu na comunidade ‒ e, a partir dessa rebeldia, dessem início a uma área vigorosa que hoje denominamos informação quântica. Que influência tiveram as ideias de Bohm para aquela geração de jovens físicos?

Uma resposta sintética é que Bohm foi dos mais notáveis dissidentes quânticos. E, na minha apreciação, sem a atividade dos dissidentes quânticos, a pesquisa em fundamentos da mecânica quântica não teria sido revalorizada na década de 1970 em diante.

 

Bohm, por causa de sua simpatia por ideias políticas de esquerda, teve que enfrentar a Comissão de Atividades Antiamericanas. Em decorrência disso, foi praticamente obrigado a sair dos EUA e vir para o Brasil e, logo depois, migrar para Israel, terminando sua carreira na Inglaterra. Como o senhor acha que essa perseguição política e as constantes mudanças decorrentes dela afetaram a carreira dele?

Afetaram de duas maneiras, pelo menos. Bohm viveu toda a década de 1950 e mesmo a seguinte sob o receio de uma deportação para os EUA. Ademais, pôde viajar graças à cidadania brasileira, o que lhe assegurou um passaporte, mas não uma nova identidade nacional, vez que a solicitação dessa nova cidadania foi uma opção ditada pelas circunstâncias e não por uma identidade maior com o Brasil.

Por fim, Bohm viveu desde o início da década de 1950 exilado dos EUA. Portanto, afastado do meio profissional que havia se transformado no polo mais dinâmico da física depois da Segunda Guerra.

Foi uma perda não só para Bohm, mas também para a física norte-americana, vez que os dissidentes quânticos norte-americanos – ou seja, Bohm, Everett, Shimony e Clauser, especialmente – desenvolveram suas ideias sem contato direto com Bohm.

 

O senhor acha que as ideias políticas de Bohm e o fato de ele ser aberto a outras formas de visão de mundo ‒ por exemplos, os debates dele com o Dalai Lama, a influência da filosofia de Jiddu Khrisnamurti ‒ influenciaram o modo como ele fazia física?

Influenciaram sua visão de mundo, mas pouco seu modo de fazer física, pois os elementos que permitem uma analogia entre áreas intelectuais tão distintas – particularmente, a dependência entre observado e observador e também a noção de totalidade – já estavam presentes no pensamento de Bohm antes de sua aproximação com Krishnamurti.

Certamente, essa aproximação reforçou e amplificou convicções pré-existentes em Bohm.

 

“Não cabe, entretanto, ao historiador julgar um programa de pesquisa com o mesmo em desenvolvimento – esta é uma tarefa para os físicos e os filósofos da física"

 

Em 1980, Bohm lançou seu livro A totalidade e a ordem implicada. Em termos simples, o que era esse novo programa de Bohm e o que ele queria com isso?

Trata-se da ideia de que os conceitos de totalidade, indivisa, e de ordem, implícita e explícita, são conceitos epistemológicos de larga utilidade na física e mesmo em outras disciplinas.

Já a tradução dessas ideias epistemológicas para um programa de pesquisa em física enfrentou dificuldades particulares. Por exemplo, tratava-se da busca de estruturas matemáticas bastante gerais, álgebras, das quais pudessem emergir os conceitos de espaço-tempo.

Bohm e Hiley, com a colaboração de outros físicos, inclusive brasileiros, dedicaram muito tempo ao desenvolvimento desse programa. Hiley, desde o falecimento de Bohm, em 1992, tem se dedicado integralmente ao mesmo.

Não cabe, entretanto, ao historiador julgar um programa de pesquisa com o mesmo em desenvolvimento – esta é uma tarefa para os físicos e os filósofos da física.

 

Como historiador da física, qual foi o maior desafio para o senhor ao escrever este seu último livro? Há possibilidade de ele ser traduzido para o português?

Fazer uma imersão no conjunto da vida e obra de uma grande personagem da ciência. Em outros trabalhos, como historiador – mesmo em trabalhos sobre Bohm –, eu estava familiarizado com a análise e a narrativa de recortes de uma obra, mas não de sua totalidade.

Sim, estou em entendimentos com duas editoras universitárias e tenho a expectativa de que ele seja publicado em português ainda este ano. 

 

“Bohm já foi comparado a Kepler: nem sempre certo nas conjecturas, mas sempre fator de desenvolvimento da ciência. Não é nada mal para um físico tal comparação”

 

Aquela geração que o senhor descreve em Quantum dissidents está na origem de uma retomada atual de interesse por questões relacionadas à filosofia e aos fundamentos mais matemáticos da mecânica quântica. Como o senhor julga a importância das ideias de Bohm para a mecânica quântica hoje?

David Bohm foi um dos mais notáveis dissidentes quânticos. Ele dedicou a maior parte de sua vida a entender a mecânica quântica, seus fundamentos e suas implicações para o futuro da física.

Independentemente do acerto ou não de algumas de suas ideias, ele contribuiu como uma espécie de modelo inspirador, ao insistir que havia boa física a ser feita nos fundamentos da mecânica quântica. A descoberta do efeito Aharonov-Bohm, em 1959, é um dos exemplos mais notáveis desta direção.

Outro exemplo – sobre o qual já falamos, sua interpretação causal – foi fonte de inspiração para o trabalho de John Bell, ou seja, um dos resultados mais fundamentais para a compreensão da mecânica quântica.

Bohm já foi comparado a Kepler: nem sempre certo nas conjecturas, mas sempre fator de desenvolvimento da ciência. Não é nada mal para um físico tal comparação.

 

SERVIÇO

 

Título: David Bohm ‒ a life dedicated to understanding the quantum world

Editora: Springer

Páginas: 264

Preço sugerido: 73 euros (capa dura) e 59 euros (versão eletrônica)

 

 Mais informações:

Quantum dissidents: https://www.springer.com/gp/book/9783662446614

Pesquisa Fapesp: https://revistapesquisa.fapesp.br/2018/01/16/olival-freire-junior-contador-de-historias-controversas/

Estada no Brasil: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141994000100012

David Bohm: causality and chance, letters to three women: https://www.springer.com/gp/book/9783319554914

 

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