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Em efeméride de Luther King, doutorando do CBPF escreve sobre ser negro na academia

  • Publicado: Quinta, 20 de Dezembro de 2018, 16h47
  • Última atualização em Quinta, 20 de Dezembro de 2018, 21h27
  • Acessos: 1115

Para marcar os 50 anos do assassinato do pastor protestante e ativista político norte-americano Martin Luther King Jr. (1929-1968), Nobel da Paz de 1964, Marcus Vinícius Bomfim de Jesus, pós-graduando do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), escreve, a convite do Núcleo de Comunicação Social, sobre o tema ‘ser negro na academia’.

 

Ser negro na academia

O Brasil tem características sociais e étnicas que se alteram quando comparamos amostras da população com os percentuais estatísticos absolutos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados no censo de 2010, a quantidade de pessoas no país que se autodeclaram negras é de 53%. Portanto, com base nesse ultimo levantamento, a população brasileira passou a ser formada majoritariamente por pessoas não brancas.

Em um contexto mais amplo, a evolução desse percentual nos fornece triste indicativo: ser negro, em nosso país, é condição quase que suficiente para não ser cientista.

No documento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) intitulado ‘Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - 2009’, publicado no ano seguinte, encontram-se dados que mostram o recorte étnico da educação no Brasil. O período de análise foi de 1992 a 2009. Os resultados apresentados são bastante similares aos contidos em ‘Igualdade Racial no Brasil’, outro documento do IPEA. Neste ultimo, os técnicos da autarquia dedicam-se a analisar todas as características sociais com enfoque racial.

 

“Nesse ritmo, a chance de algum membro da população afrodescendente chegar à pós-graduação é ínfima”

 

Apesar de conhecida, a realidade da população negra, quando posta em números por esses documentos, é aterradora. Observando aspectos da escolaridade, chega-se tristemente à conclusão de que, com o passar dos anos de formação educacional, a participação negra no montante total de alunos cai drasticamente. Portanto, nesse ritmo, a chance de algum membro da população afrodescendente chegar à pós-graduação é ínfima.

 

Martin Luther King Jr. (1929-1968)

(Crédito: Wikimedia commons)

 

Para os negros, chegar à condição de alunos universitários não significa estar livre de problemas circunscritos à cor da pele. Embora o reconhecimento seja parcialmente obtido, dependendo do grau de valorização social da área do curso, são sistematicamente desencorajados a permanecer na ou concluir a graduação.

As desmotivações podem vir de forma explicita e objetiva, como diz Neil Degrasse Tyson, em ‘On being Black, and Women in Science’. Nesse vídeo, o astrofísico e divulgador da ciência norte-americano fala da frase mais ouvida por ele quando dizia que cursava astrofísica: ‘Por que não tenta algo mais fácil como basquete?’ Isso demonstra a tentativa ‒ muito comum ‒ de reposicionar o negro no lugar socialmente reconhecido como ‘comum e adequado’ para ele.

 

“Em geral, ser negro na academia significa receber consideravelmente menos convites para orientações, participações em bancas e parcerias de trabalho”

 

Ao menos em parte, o meio acadêmico não está livre dos vícios e das mazelas da sociedade à qual ele pertence. Não são incomuns relatos de professores universitários negros com dificuldades bastante particulares quando comparados a colegas brancos. Em geral, ser negro na academia significa receber consideravelmente menos convites para orientações, participações em bancas e parcerias de trabalho.

Em artigo intitulado ‘Doutoras professoras negras: o que nos dizem os indicadores oficiais’, de Joselina da Silva, professora da Universidade Federal do Ceará (campus Cariri), estão revelados aspectos ainda mais preocupantes. A autora mostra não haver uma correlação evidente entre, por um lado, a produção e o desempenho acadêmico individual e, de outro, a ocupação de posições de poder dentro das instituições de ensino superior.

No artigo, vê-se que o preenchimento de cargos dessa natureza é feito por membros do grupo de maioria absoluta na academia, ou seja, o de homens brancos.

 

“Ser negro na academia é ver-se em meio à interminável luta contra o fenômeno de fundo chamado racismo”

 

Em um experimento científico, o que se deseja é abstrair o fenômeno de interesse do conjunto de todos os outros fenômenos possíveis. Com isso, são provadas ou superadas hipóteses, modelos, teorias etc. Os fenômenos descartados são comumente classificados como ‘fenômenos de fundo’.

Se encararmos a ciência como um estudo de autodesempenho, assumimos que um bom cientista é aquele que tem bom rendimento acadêmico. Logo, nesse contexto, ser negro na academia é ver-se em meio à interminável luta contra o fenômeno de fundo chamado racismo, que compromete irremediavelmente acadêmicos afrodescendentes.

 

Marcus Vinícius Bomfim de Jesus

Pós-graduando

CBPF

 

Mais informações:

PNAD - 2009:

https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2009/default.shtm

Vídeo de Neil Degrasse Tyson (inglês):

https://youtu.be/z7ihNLEDiuM

Artigo de Joselina da Silva:

https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/2175-795X.2010v28n1p19

 

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