Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Últimas notícias

Emérito da UFMG trata da lucratividade relativa à recuperação florestal

  • Publicado: Segunda, 07 de Outubro de 2019, 17h06
  • Última atualização em Terça, 08 de Outubro de 2019, 17h24
  • Acessos: 303
imagem sem descrição.

A convite do Núcleo de Comunicação Social, o físico Alaor Chaves, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e colunista do portal do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), analisa a lucratividade gerada pela recuperação florestal.

 

Recuperar floresta no Brasil é muito lucrativo

A enorme crise gerada pelo desmatamento e pelos grandes incêndios na Amazônia, neste inverno de 2019, põe em foco e com maior intensidade o antigo problema de como explorar sustentavelmente a maior floresta tropical do mundo. A questão é complicada, e muitos especialistas opinam que explorar a biodiversidade da floresta, mantendo-a em pé, é, tanto ecológica quanto economicamente, a melhor opção.

A questão não pode ser considerada isoladamente. De fato, é preciso pensar na administração responsável e inteligente de todos os biomas brasileiros. Neste artigo, falaremos sobre o cultivo de madeira em áreas brasileiras já desmatadas, incluída a integração com agricultura e/ou pecuária. Esta área é enorme. O Brasil já desmatou 75 milhões de hectares (750 mil km²) da Amazônia legal, o que corresponde a 20% da sua área total. Na Mata Atlântica e no Cerrado, o desmatamento foi ainda maior. A produção de madeira em todas essas áreas, além de inviável, iria gerar grande excesso de oferta no mercado mundial.

A Floresta Amazônica é o maior dos grandes biomas brasileiros, que também incluem a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal e o Pampa (figura1).

 

Figura 1. Mapa dos grandes biomas brasileiros

(Crédito: Wikimedia Commons)

 

Como a transição entre os biomas não é abrupta ‒ e também há ilhas de um bioma dentro de outros ‒, a área de cada bioma é imprecisa, e seu valor depende da fonte consultada. A Mata Atlântica é o mais degradado dos nossos biomas. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, ela cobria originalmente 1,30 milhão de km² do nosso território, abrangia 100% dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina, bem como 94% do Paraná, além de partes de outros 14 estados.

Nela, hoje, vivem 72% da população brasileira. Apenas 12,4% (162 mil km²) da mata está de pé ou em estado razoável de regeneração. O que se salvou está principalmente em montanhas (serras do Mar, da Mantiqueira e outras), além de reservas protegidas. Exceção muito importante ‒ e que nos ensina uma lição que retomaremos mais adiante ‒ é o chamado sistema cabruca, que há 250 anos tem sido usado em parte do sul da Bahia para o cultivo do cacau. Os fazendeiros descobriram que o cacau plantado à sombra é mais produtivo. Por isso, as lavouras de cacau avançaram sob a mata, da qual só era retirado o sub-bosque.

O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, com área de 2,0 milhões de km². Até a década de 1960, pouco do revestimento arbóreo do Cerrado havia sido retirado, embora gado fosse criado, com baixíssima produtividade, nas pastagens naturais de campos limpos ou sob a sombra das árvores. Na década seguinte, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) iniciou um extraordinário trabalho técnico de exploração das áreas do Cerrado. Hoje, ele é a principal fronteira agrícola do país; nele, vive mais da metade do nosso rebanho bovino, e são colhidos 65% da nossa soja.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, em 2017, já havia sido desmatada metade do Cerrado. Ocorre que o Cerrado, principalmente em Minas Gerais e na região Centro-Oeste, é local de importantes nascentes. Oito das doze grandes bacias hidrográficas do país recebem grande parte da sua água do Cerrado. O solo é muito poroso e em média bastante plano. Por isso, a água da chuva infiltra-se facilmente e se acumula em lençóis freáticos relativamente rasos, o que resulta em muitas nascentes em pequenas matas ou nas chamadas veredas. Essas nascentes foram fortemente afetadas pelo desmatamento, criando grande redução da vazão dos nossos córregos e rios.

 

Reflorestar: urgente e lucrativo

A ministra da agricultura, Tereza Cristina, engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa, aponta que as áreas desmatadas da Amazônia regeneram-se por si, se deixadas sem exploração. A nova floresta é menos diversificada que a mata virgem original, pois é formada predominantemente por árvores agressivas, de rápido crescimento. Mas isso é aceitável, dada a extraordinária biodiversidade amazônica.

Uma vez que grande parte das pastagens e lavouras da Amazônia foi criada por grileiros, eles podem ser desalojados legalmente de suas posses, pois as terras são, na maior parte, propriedade pública ‒ e ao bem público não se aplica o direito de usucapião.

A floresta virgem amazônica tem enorme efeito sobre o clima brasileiro. Sua evaporação gera os rios voadores, correntes de ar muito úmido que, ao encontrar a barreira dos Andes, são refletidas rumo ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul, atingindo ainda outros países. Estima-se que eles tenham vazão igual ou maior do que a do rio Amazonas. São responsáveis por grande parte da chuva nas mencionadas regiões brasileiras.

Entretanto, a floresta não opera como absorvedora do gás carbônico (CO2) da atmosfera, pois sua massa é constante – ignoradas as oscilações sazonais. Já a mata de rebrota espontânea ou plantada sobre área desmatada, fixa grande quantidade de carbono em sua madeira e, por isso, é um importante redutor do CO2 atmosférico.

Além do mais, reflorestar ‒ seja em silvicultura solteira ou consorciada com agricultura ou pecuária ‒ é muito rentável. Trataremos os dois casos.

 

Silvicultura no Brasil

A silvicultura em maior escala no Brasil começou com a introdução de várias espécies de eucalipto há cerca de um século. Algumas se adaptaram muito bem no país e são mais produtivas aqui do que na Austrália, país de origem. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), em 2017, havia no Brasil 9,85 milhões de hectares (98,5 mil km²) de florestas comerciais plantadas, que respondem por uns três quartos da nossa produção de madeira.

Nossa silvicultura concentra-se principalmente no cultivo de eucalipto (75,2%) e de pinus (20,6%) ‒ que são usados majoritariamente para produção de carvão vegetal (12,4%) e de celulose ‒ e abrange as regiões do Cerrado e da Mata Atlântica. O Brasil foi, em 2016, o 2º maior produtor mundial de celulose, mas apenas o 8º produtor mundial de papel (figura 2).

 

Figura 2. Oito maiores produtores de celulose (esq.) e papel em 2016

(em milhões de toneladas)

(Crédito: Indústria Brasileira de Árvores/Ibá, Anuário 2017)

 

A relativamente alta produção de celulose reflete uma vantagem (resultante do nosso clima) da produtividade da silvicultura, da qual nenhum dos nossos competidores consegue sequer se aproximar. Para as nossas árvores – e, de resto, para nossas plantas –, o ano tem doze meses de grande luminosidade e temperatura adequada.

Segundo André Barros da Hora, gerente do Departamento de Indústrias de Base Florestal Plantada do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, no documento Panoramas Setoriais 2030: papel e celulose (2017), os pinus e eucaliptos usados no Brasil para a produção de celulose dão o primeiro corte aos sete anos, prazo que pode chegar a 40 anos em países menos produtivos.

Ainda segundo da Hora, essa vantagem pode ser reduzida “em função do desenvolvimento e aplicação comercial bem-sucedida dos organismos geneticamente modificados (OGM) em árvores, que podem aumentar exponencialmente a produtividade florestal, em particular nos países menos produtivos. Tal fator exige longo prazo de pesquisa e testes, o que faz com que, até 2030, muito possivelmente ainda não tenha atingido todo seu potencial.”

Como resultado do esforço tanto de empresas privadas quanto de órgãos públicos, a silvicultura brasileira é tecnologicamente avançada. Tem havido trabalho muito bem-sucedido de melhoramento genético convencional e de clonagem dos melhores espécimes. O manejo das plantações também avança continuamente – voltaremos ao problema do manejo mais adiante. Mas a criação de espécies arbóreas geneticamente modificadas será uma realidade futura, e o Brasil não pode ficar esperando o futuro acontecer, pois nossos concorrentes irão desenvolver árvores mais adaptadas aos climas deles, não ao nosso.

Há grande e crescente demanda por celulose no mundo (principalmente, em países como EUA, Alemanha, China, Coreia do Sul e Japão), à qual o Brasil pode atender com custos de produção muito mais baixos, e, aproveitando essa oportunidade, podemos aumentar em muito nossa produção. Há também a oportunidade de parcerias com a China, o Japão e a Coreia do Sul para participação na produção brasileira de celulose e papel, o que garante às partes contratos de longo prazo que asseguram as nossas exportações desses produtos e o atendimento das necessidades de nossos parceiros.

           

Integração: lavoura-pecuária-floresta

Embora em declínio, a área brasileira dedicada a pastagens é muito grande, cerca de 160 milhões de hectares (1,6 milhão de km²). A pecuária em regime tradicional de pastagem pode ser a pior destinação que se possa dar à terra. No caso do Brasil, isso é agravado pela baixa produtividade da atividade: metade das pastagens está gravemente e 30% delas estão moderadamente degradadas.

Há alguns anos, a Embrapa vem desenvolvendo sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), lavoura-pecuária (ILP), lavoura-floresta (ILF) e pecuária-floresta (IPF), como na figura 3, que resultam em grande aumento da produtividade, estabilidade dos lucros e melhoramento do solo.  Um link em ‘Mais informações’, ao fim deste texto, acessa palestra com abundância de figuras autoexplicativas sobre os diferentes consórcios.

 

Figura 3. Gado em pastagem sombreada por árvores plantadas (IPF)

(Crédito: Senar.org.br)

 

A alternativa ILP vem sendo desenvolvida há mais tempo e já levou a resultados impressionantes. Na mesma área, é possível colher a cada ano uma safra de soja, outra de milho e produzir, em pastagem plantada nas entrelinhas do milho, pelo menos o dobro da carne produzida, na média brasileira, em pastagens de pastoreio contínuo.

A alternativa IPF já demonstrou resultados muito positivos. Na intensa insolação brasileira, sob árvores que sombreiam 30% da área, as pastagens não sofrem redução da massa verde produzida. Mas o gado se beneficia dessa condição. Há pouco vento, o gado pode ruminar e descansar na sombra e as variações de temperatura entre o dia e a noite ficam reduzidas.

Esse conforto térmico causa um bem-estar nos animais que aumenta em 30% a produção de carne e de leite. O ganho de produtividade paga com sobra os gastos com a plantação das árvores, e, no final, o agricultor obtém boa renda na colheita da madeira. A integração melhora a saúde das árvores, da pastagem, do solo e dos animais.

A ILF inclui o plantio de árvores frutíferas (cacau, café etc.) sob a sombra de árvores naturais ou plantadas. O cacau tem sido plantado com sucesso por 250 anos na Bahia, sob florestas naturais da Mata Atlântica, raleadas com a retirada do sub-bosque. A incidência da vassoura-de-bruxa, em 1989, devastou os plantios, e o Brasil, que respondia por 14% da produção mundial de cacau, teve essa participação reduzida a 4% em 2000.

A produção de cacau na Bahia teve de ser reinventada com inovações, como o desenvolvimento e a clonagem de cacaueiros resistentes ao fungo causador da doença – pelo menos, às variedades do fungo existentes na região.

Mas a lavoura do cacau no Brasil, neste século, passou também por mudanças geográficas e sociais. A Amazônia já produz 70% do cacau brasileiro; Pará está em processo de superar a Bahia como principal estado produtor. O cacau amazônico também é cultivado à sombra de matas originais ou em estado avançado de regeneração. Domina na atividade a agricultura familiar, em parte financiada pelo Pronaf (Programa Nacional de Aperfeiçoamento da Agricultura Familiar), o que pode levar a grande aumento da produção.   

O cultivo do café sombreado tem expandido em todas as regiões produtoras. O sombreamento reduz a produção de café por unidade de área. Mas os frutos amadurecem mais lentamente e de modo muito mais uniforme, o que produz bebida mais fina. A elevação do preço do grão compensa a perda de produtividade.

Em Rondônia e no Acre, a cultura do café é recente e realizada sob sombreamento. A Embrapa Rondônia desenvolveu uma variedade de café arábica (Café Arábica Amarelo 2SL) adaptada ao clima da Amazônia – até então, só os cafés conilon, bem mais baratos, podiam ser cultivados em climas quentes.

A ILPF, que integra tudo, é mais elaborada e cheia de variantes; por isso, não a discutiremos.

 

Cultivo de mogno

O território brasileiro foi excepcionalmente rico em madeiras nobres. Com o decorrer do tempo, quase as extinguimos da Mata Atlântica. Algumas delas são de crescimento excessivamente lento para atrair silvicultores. O mogno brasileiro (Swietenia macrophyla), espécie nativa na Amazônia, de crescimento satisfatoriamente rápido, é uma das madeiras mais caras do mundo; o metro cúbico dela, serrada, vale até US$ 3 mil. Foi excessivamente extraído na Amazônia, e sua extração, hoje, está proibida. Mas é contrabandeado para os EUA e a União Europeia para a fabricação de móveis de luxo.

O mogno brasileiro é frequentemente atacado pela mosca Hypsipyla grandella, cuja larva ‒ chamada broca-das-meliácias ou broca-do-ponteiro ‒ perfura os ponteiros das árvores, provocando galhamento muito baixo, atraso no crescimento ou até morte das árvores. Para populações elevadas da árvore em uma dada área, é comum que quase todas elas sejam atacadas, a menos que haja forte combate à mosca. Hoje, essa espécie de mogno é cultivada principalmente no sul da Ásia, onde a H. grandella não ocorre naturalmente.

Há cerca de meio século, uma espécie de mogno africano, Khaya grandifoliola (figura 4), relativamente resistente à broca, foi introduzida no Brasil. Em muitas regiões brasileiras, apresenta crescimento rápido. Há, no momento, intensa onda de plantação, em monocultura ou em consórcio com café, lavoura ou pastagem. O lucro médio por hectare/ano chega a R$ 58 mil, 75 vezes maior do que o do eucalipto.

 

Figura 4. Árvores novas de mogno africano

(Crédito: Casa do Produtor/ESALQ)


            O mogno africano é a madeira nobre mais cultivada no Brasil. Mas um fato novo pode levar ao cultivo em grande escala do mogno brasileiro, cuja madeira tem valor mais elevado. No clima quente e relativamente seco do norte de Minas Gerais, segundo relatos publicados, essa árvore cresce duas vezes mais rápido do que na Amazônia, e a infestação da H. grandella é bem menor e mais facilmente controlável.

Em parte, o controle é feito pelo anu, ave conhecida e apreciada por catar carrapatos no gado e também eficiente no controle da broca. Em plantações de até três anos, o controle tem de ser rigoroso. Após essa idade, a broca deixa de causar danos significativos no mogno.

Há uma corrida para o cultivo do ‘ouro verde’, que já atraiu cerca de 200 produtores. Estima-se que 60% do mogno (brasileiro e africano) plantados no Brasil estejam em Minas Gerais. Em vários casos, o mogno é cultivado em consórcio com uva de mesa ‒ nesse caso, por migrantes de Santa Catarina. Estes já haviam aprendido a controlar a broca, que, em Minas Gerais, também ataca as parreiras. Usam irrigação por gotejamento, prática comum nos parreirais que acelera ainda mais o crescimento do mogno.

 

Alaor Chaves

Professor emérito

UFMG

 

Mais informações:

Palestra: http://www.senado.leg.br/comissoes/cma/ap/ap20090908_embrapa_balbino.pdf

Mogno africano: https://blog.radixflorestal.com.br/lucratividade-do-mogno-africano-saiba-porque-ele-e-um-bom-negocio/

Mogno brasileiro: http://www.sementescaicara.com/ImagensDiversas/file/mognomaisinfo.pdf

Mogno africano: https://www.otempo.com.br/economia/rentabilidade-do-ouro-verde-atrai-produtores-em-minas-1.1426531

 

 

 

 

 

registrado em:
Fim do conteúdo da página