Ir direto para menu de acessibilidade.
Início do conteúdo da página
Últimas notícias

Filme raro traz Beck, pioneiro da física no Brasil

  • Publicado: Sexta, 13 de Novembro de 2020, 16h52
  • Última atualização em Sexta, 13 de Novembro de 2020, 16h52
  • Acessos: 285

A convite do Núcleo de Comunicação Social, Antonio Augusto Passos Videira, pesquisador colaborador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, analisa o cenário histórico de filme raro em que um dos pioneiros da física no Brasil aparece.

 

Beck e o encontro em Roma em 1931

Apesar de 1932 ser considerado o ano miraculoso da física nuclear – pois marcaria o nascimento dessas disciplina, como resultado das descobertas do nêutron, deutério (hidrogênio ‘pesado’) e pósitron (elétrons positivo) –, a historiografia da física registra que o primeiro congresso especialmente dedicado a discutir problemas relativos ao núcleo atômico, seus constituintes e suas propriedades aconteceu em Roma, entre 11 e 18 de outubro de 1931.

Segundo a literatura, a ideia de organizar esse evento foi de Enrico Fermi, que, apoiado por Orso Corbino, conseguiu convencer a Fundação Volta a apoiá-lo. Corbino, além de físico, foi senador e personagem influente junto ao governo de Benito Mussolini, de quem foi ministro da Economia em 1923 – apesar de nunca ter sido membro do Partido Nacional Fascista.

 

O encontro

O evento em Roma reuniu os principais físicos que então se dedicavam a entender o núcleo atômico (figura). Não chegava a 40 o número de cientistas reunidos na Cidade Eterna.

Entre eles, além de Fermi e Corbino, os também italianos Bruno Rossi e Franco Rasseti; o dinamarquês Niels Bohr; os alemães Werner Heisenberg, Arnold Sommerfeld, Walther Bothe e Otto Stern; os franceses Jean Perrin, Marie Curie e León Brillouin; os holandeses Peter Debye e Samuel Goudsmit; os norte-americanos Robert Millikan e Arthur Compton; os britânicos Charles Ellis, Francis Aston e Nevil Mott; e os austríacos Paul Ehrenfest e Wolfgang Pauli.

Estavam presentes também dois pioneiros da física no Brasil: o ítalo-russo Gleb Wataghin – descrito, nas atas, como um dos secretários do encontro – e o austríaco Guido Beck – que aparece em um filme raro depositado na internet.

O ucraniano George Gamow deveria ter comparecido, mas não recebeu permissão do governo soviético para viajar. O presidente de honra do congresso foi Guglielmo Marconi, que, apesar de respeitar Fermi cientificamente, mantinha apenas relações cordiais com este último.

 

Encontro em 1931 em Roma; Guido Beck está de terno claro, abaixo da placa (alto, à dir.)

 

Filme e temas

No filme raro que registrou o conjunto de físicos presentes ao congresso de Roma, Beck aparece rapidamente, à esquerda de Fermi, a partir de 00:15:25:14. O vídeo pode ser acessado aqui: https://www.youtube.com/watch?v=2OS2CRAoZKE  

No encontro, Pauli discutiu sua hipótese relativa à existência do neutrino, necessária para explicar o comportamento anômalo dos raios beta – processo em que um nêutron decai em um próton, um elétron e um neutrino. Rossi falou sobre raios cósmicos, e Goudsmit sobre espectroscopia e momentos nucleares.

Beck apresentou palestra dedicada a discutir o esquema de níveis de energia que poderiam ser atribuídos ao Ra C’ (rádio C’).

Em 1931, Beck – ainda assistente de Heisenberg, no Instituto de Física de Leipzig (Alemanha) – era um dos mais produtivos e influentes pesquisadores em física nuclear à época.

Sua participação em Roma o levou a ser convidado a escrever artigo para a Revista de Scientia, publicado no ano seguinte. Nesse trabalho, Beck, de forma semitécnica, apresentava ideias e noções necessárias para a descrição da estrutura do núcleo atômico. Também em 1932, outro texto importante de Beck foi publicado no Handbuch der Radiologie, editado por Erich Marx.

Nesses dois trabalhos, Beck mostra grande convicção sobre a existência de elétrons no núcleo atômico – ideia corriqueira à época, mas que se mostrou posteriormente errada.

 

Antonio Augusto Passos Videira

Pesquisador colaborador

CBPF

Departamento de Filosofia,

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

registrado em:
Fim do conteúdo da página