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Titular analisa artigo sobre magnetismo em cães

  • Publicado: Quarta, 30 de Setembro de 2020, 18h12
  • Última atualização em Quarta, 30 de Setembro de 2020, 18h22
  • Acessos: 464

A convite do Núcleo de Comunicação Social, o físico experimental Daniel Acosta Avalos pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro (RJ), comenta resultado recente da literatura científica que atribui senso de orientação magnética a cães, que usariam o campo terrestre como referência espacial.

 

Cachorros magnéticos

Entre os animais selvagens domesticados, acredito que os cachorros tenham sido os primeiros a serem companheiros inseparáveis dos humanos. Após milhares ou dezenas de milhares de anos de convívio – não há consenso na literatura científica sobre quando e onde os cães foram domesticados –, nossos companheiros caninos continuam a nos surpreender.

Reconhecidos por seu faro apurado, esses animais são capazes de detectar quantidades ínfimas de moléculas de odor – os cães tem dezenas de vezes mais receptores olfativos que os cerca de 5 ou 10 milhões presentes em humanos. Outra capacidade superior à nossa: eles têm audição capaz de captar frequências que o ouvido humano não detecta.

Recentemente, trabalho no periódico eLife concluiu que os cachorros podem usar o campo magnético da Terra como referência espacial em suas atividades de caça. O trabalho foi desenvolvido pelo grupo de Hynek Burda, da Universidade Tcheca de Ciências da Vida, que reúne pesquisadores com extenso trabalho de investigação em alinhamento magnético dos animais, fenômeno em que o corpo se alinha com a direção Norte-Sul do campo geomagnético.

A função biológica desse alinhamento depende de cada animal, e, em geral, não se sabe qual é. Por exemplo, em outro artigo, o grupo de Burda alega ter demonstrado que cachorros alinham seus corpos com as linhas do campo geomagnético quando defecam. Mas, até o presente momento, se desconhece a importância biológica desse comportamento para esses animais.

Já artigo deste ano da equipe de Burda na eLife examinou, por três anos, 27 cachorros de caça e analisou mais de 600 trajetórias que esses animais seguiram. Para isso, foi fixado em cada cão um GPS no pescoço e uma câmera digital na lateral do corpo.

 

Surpresa

Os pesquisadores observaram que os cachorros seguiam duas estratégias para voltar até seu dono, após acharem a caça: i) voltavam pelo mesmo caminho que seguiram até a presa –  estratégia chamada ‘tracking’ (ou rastreamento); ii) ou usavam caminho alternativo, mais curto (‘scouting’ ou reconhecimento).

Após a análise das trajetórias dos GPSs, a equipe observou que 60% dos cães usaram a estratégia de ‘tracking’, e 33% a de ‘scouting’.

Uma surpresa surgiu quando os pesquisadores notaram que, antes de começar a volta pelo ‘scouting’, os cachorros faziam uma corrida de aproximadamente 20 metros na direção Norte-Sul geomagnética. Após isso, começavam a volta usando caminho novo e inexplorado.

Os pesquisadores acreditam que essa corrida inicial de 20 metros serviria para o cachorro calibrar algum sistema de navegação interno. Dessa forma, ele conseguiria traçar a melhor direção para retornar ao ponto de onde se separou de seu dono, sugerindo que o cão construiria um mapa mental da região onde esta caçando.

Conclusão à qual chegaram os pesquisadores: cachorros têm um sentido magnético que pode ser usado para orientá-los espacialmente.

Estudos assim são importantes para entender a orientação magnética em mamíferos. Antes dos cachorros, esse fenômeno só tinha sido estudado em outros dois mamíferos: toupeiras e hamsters. A possibilidade de fazer estudos de campo com os cachorros permite obter resultados que refletem melhor o que acontece na natureza, para além dos espaços fechados dos laboratórios. 

 

Daniel Acosta Avalos

Pesquisador titular

CBPF

 

Mais informações:

Artigo: https://elifesciences.org/articles/55080

 

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